sábado, 25 de julho de 2026

Mongo Santamaria - SOFRITO (1976)

Ramón Santamaria Rodriguez, mais conhecido como Mongo Santamaria, foi um percussionista e compositor cubano. Se você é fã de jazz, provavelmente já ouviu "Afro Blue", composição dele gravada por John Coltrane, Abbey Lincoln e dezenas de outros músicos.

Quando se fala sobre "Latin Jazz", o nome de Mongo Santamaria é um dos mais mencionados, e com razão. Ele teve grande sucesso comercial em 1963 com uma versão de "Watermelon Man" de Herbie Hancock, que escalou as paradas de pop e R&B dos Estados Unidos. Entre os inúmeros registros de sua arte há um álbum que na minha opinião nunca recebeu a atenção que merece e que eu acho extraordinário. "Sofrito", gravado em 1976, foi considerado na época mais um álbum "comercial" da fase dos anos '70 do percussionista cubano, mas é hoje um verdadeiro clássico do latin jazz com influências de jazz-funk e fusion.

Vou começar pela capa, que já conta uma história. Vemos aqui uma grande panela de "sofrito", a mistura de cebola, alho, pimentão, tomate, ervas e outros ingredientes que é a base da cozinha caribenha. É uma clara metáfora para o próprio álbum, que reúne ritmos afro-cubanos, jazz, funk, soul, música brasileira e arranjos sofisticados, tudo "cozinhado" em uma única linguagem.

Mas existe outro contexto interessante a ser levado em consideração. Mongo Santamaria cresceu cercado pela rumba, pelos cantos iorubás e pela tradição religiosa da Santeria, que preserva elementos espirituais originários da África. Essa herança é evidente em "O Mi Shangô". A faixa começa com tambores batá, usados em cerimônias religiosas e traz cantos em iorubá com uma base elétrica moderna. É um exemplo de como tradição e modernidade podem conviver.

A inicial "Iberia" sugere uma longa viagem cultural entre África, Espanha e Brasil. Os arranjos deixam bastante espaço para a respiração da música. Os metais entram com elegância e o Fender Rhodes colore o fundo, sempre sustentado pelo pulso constante da percussão.

"Cruzan" é uma faixa muito sofisticada ritmicamente, onde a música avança naturalmente, como se estivesse conduzida por uma corrente com o sax baritono de Roger Rosenberg dialogando primeiro com o Rhodes e depois com os teclados em um clima quase cinematográfico.

A faixa-título, "Sofrito", é extraordinária. Começa de forma quase contemplativa e vai crescendo até criar uma tensão rítmica enorme. Os sopros entram com muito bom gosto e a percussão de Mongo nunca soa exibicionista; ela impulsiona a música inteira. Os ritmos cubanos vivem no piano, na flauta e no trompete e na voz que repete "sofrito".

Essas são apenas algumas faixas, mas o que mais me impressiona no álbum todo é o equilíbrio. Temos percussão afro-cubana autêntica, arranjos de metais muito sofisticados, Fender Rhodes e sintetizadores típicos dos anos '70 e grooves jazz-funk, sem nunca perder a identidade latina. Um álbum que é um convite para degustar culturas e sabores diferentes em uma mistura irresistível de temperos que vai conquistando o ouvinte cada vez mais a cada nova audição. Difícil de esquecer.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Donald Byrd - ROYAL FLUSH (1961)

Em setembro de 1961, quando Donald Byrd entrou nos estúdios de Rudy Van Gelder para gravar Royal Flush, o mundo vivia um momento de enormes transformações. Um mês antes havia sido erguido o Muro de Berlim, símbolo máximo da Guerra Fria. John F. Kennedy ainda completava seu primeiro ano na presidência dos Estados Unidos, enquanto a corrida espacial ganhava força após Yuri Gagarin se tornar o primeiro homem a viajar ao espaço. Era uma época em que o futuro parecia promissor, mas também profundamente incerto.

No jazz, a efervescência era igualmente impressionante. Hard bop, jazz modal e as primeiras experiências do free jazz conviviam lado a lado. Era um período em que praticamente toda semana surgia um novo clássico. E foi exatamente nesse cenário que Donald Byrd gravou um dos álbuns mais elegantes e subestimados de sua carreira.

A primeira surpresa está na formação. Em vez de um sax tenor, Byrd escolheu o grande Pepper Adams no sax barítono, criando uma combinação sonora incomum e extremamente rica. O contraste entre o trompete luminoso e preciso de Byrd e o timbre encorpado de Adams dá ao álbum uma personalidade muito própria.

Mas há outro detalhe que torna essa sessão histórica: ao piano está um jovem de apenas 21 anos chamado Herbie Hancock. Ainda faltavam alguns meses para o lançamento de Takin' Off e muito antes de ele revolucionar o quinteto de Miles Davis, Hancock já demonstrava aqui uma maturidade impressionante. Seus acordes sofisticados, seu senso de espaço e sua elegância nos solos fazem parecer que já era um veterano.

A cozinha formada por Butch Warren e Billy Higgins é simplesmente impecável. Higgins, em especial, toca com aquele swing irresistível que faz tudo parecer fácil. Não há um único momento em que a música soe forçada; ela simplesmente flui.

O repertório mantém um equilíbrio perfeito entre energia e lirismo. "Hush" abre o álbum com um hard bop vibrante e sofisticado, enquanto "Jorgie's" oferece um dos melhores momentos da sessão, recheado de excelentes improvisos. A belíssima "I'm a Fool to Want You" revela um Donald Byrd extremamente sensível, mostrando que seu trompete podia ser delicado sem perder personalidade.

O encerramento merece uma atenção especial. "Requiem", composta pelo jovem Herbie Hancock, já aponta para o compositor brilhante que ele se tornaria poucos anos depois. É difícil acreditar que aquela peça tenha sido escrita por alguém no início da carreira.

Como praticamente todos os grandes discos da Blue Note desse período, Royal Flush foi gravado por Rudy Van Gelder. O resultado é uma gravação quente, natural e extremamente equilibrada, na qual cada instrumento encontra seu espaço sem jamais perder a sensação de conjunto.

Royal Flush talvez não tenha a fama de obras-primas como Free Form ou A New Perspective, mas é um disco que recompensa cada nova audição. É um retrato perfeito de um momento em que o hard bop atingia sua plena maturidade, pouco antes de o jazz embarcar em mudanças profundas ao longo da década de 1960.

Mais de sessenta anos depois, continua soando moderno, elegante e incrivelmente inspirador. Para quem aprecia a fase áurea da Blue Note, é um álbum indispensável e uma prova de que Donald Byrd foi muito mais do que um grande trompetista: foi um músico que soube reunir talento, bom gosto e visão artística em um dos períodos mais férteis da história do jazz. E com esses 5 músicos, "Royal Flush" é realmente uma "mão perfeita".

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Javon Jackson - A LOOK WITHIN (1996)

A resenha de hoje é sobre um dos meus álbuns favoritos dos anos '90 e um dos cds mais recorrentes nas minhas audições. Estou me referindo a "A Look Within" de Javon Jackson.

Para quem não tiver familiaridade com este nome, Javon Jackson é um sax tenor que surgiu numa época em que o jazz buscava novas direções. Apesar disso, ele sempre manteve um pé firme na tradição do hard bop, sem jamais soar datado.

Seu principal cartão de visita foi integrar os Jazz Messengers de Art Blakey entre 1987 e 1991. Poucos músicos passaram por essa "universidade do jazz" sem sair transformados, e Jackson absorveu muito daquela filosofia: som robusto, swing intenso e enorme respeito pela melodia.

Seu fraseado revela claramente a influência de Joe Henderson, algo que ele nunca escondeu, mas Javon acrescenta um lirismo próprio e um toque mais direto, menos abstrato. É um daqueles saxofonistas que agradam tanto aos puristas quanto aos ouvintes que procuram um jazz moderno sem excessos experimentais.

Foi nesse contexto que surgiu "A Look Within", lançado pela Blue Note em 1996.

Nesse álbum, Jackson se afasta da imagem de "continuador do hard bop". Em vez de montar um repertório composto apenas por standards ou blues, ele escolheu músicas de universos muito diferentes e conseguiu unificá-las através da própria linguagem. É de se admirar sua coragem de ampliar o repertório, evitando ser visto apenas como um revivalista.

O álbum passeia por compositores tão distintos quanto: Egberto Gismonti, Frank Zappa, Muddy Waters, Freddie Hubbard, Charles Mingus, Serge Gainsbourg, Duke Ellington e Hank Mobley. É um repertório que poderia facilmente soar desconexo nas mãos de outro músico, mas Jackson consegue dar unidade a tudo.

A escolha da guitarra de Fareed Haque, em vez do tradicional piano durante boa parte do álbum, cria um espaço sonoro muito aberto. Isso permite que o tenor respire e que cada frase de Jackson tenha ainda mais impacto.

Entre as faixas, algumas merecem atenção especial.

"Assessment (For Elvin Jones)" é uma homenagem ao lendário baterista de Coltrane, com o qual Javon gravou um álbum pela holandesa Timeless em 1992. O tema já mostra toda a intensidade do sax de Jackson e sua capacidade de construir longos discursos melódicos.

"Memória e Fado" de Egberto Gismonti é uma música profundamente melancólica, mas sem cair no sentimentalismo. Ela transmite uma sensação de contemplação, quase de nostalgia serena. Em vez de tentar reproduzir o universo sonoro de Gismonti, o saxofonista transforma a composição em um veículo para o jazz acústico. O tema permanece reconhecível, mas ganha uma pulsação diferente. O tenor de Jackson canta a melodia com enorme respeito, sem exageros, enquanto a guitarra de Fareed Haque colore a harmonia de maneira muito delicada.

"Zoot Allures", de Frank Zappa, é uma surpresa deliciosa. Poucos saxofonistas de hard bop escolheriam Zappa para um disco da Blue Note, mas a releitura funciona incrivelmente bem.

"Country Girl" traz a participação de Cassandra Wilson e estabelece uma ponte entre blues e jazz moderno com enorme naturalidade.

E, para quem gosta de Hank Mobley (como eu), "Recado Bossa Nova" fecha o álbum de forma brilhante. Jackson não tenta reinventar o clássico; ele preserva o balanço original e acrescenta seu tenor encorpado e cheio de personalidade.

O que mais me agrada em "A Look Within" é justamente o equilíbrio. Jackson demonstra um profundo respeito pela tradição, mas evita a armadilha da nostalgia. O disco soa elegante, moderno e extremamente musical. Não há demonstrações gratuitas de virtuosismo; tudo está a serviço da melodia.

É um daqueles álbuns que crescem a cada audição e que mostram por que Javon Jackson é frequentemente citado como um dos mais sólidos tenoristas de sua geração.

Andrew Hill - BLACK FIRE (1964)

Ah, a Blue Note dos anos '6o...Quantos álbuns extraordinários!

"Black Fire" é um desses. O disco foi gravado em novembro de 1963 e marcou a estreia de Andrew Hill na Blue Note. O produtor Alfred Lion enxergava Hill como um dos grandes compositores da nova geração, e esse álbum já mostra por quê. Nos anos seguintes, Hill gravou uma sequência de discos hoje considerados clássicos, como Smoke Stack, Judgment! e Point of Departure.

O quarteto é de altíssimo nível: Andrew Hill no piano, Joe Henderson no sax tenor, em uma das suas primeiríssimas gravações, Richard Davis no contrabaixo e Roy Haynes na bateria. O baterista originalmente escalado era Philly Joe Jones, mas um problema de agenda fez com que ele fosse substituído por Roy Haynes. Hoje é difícil imaginar o disco sem Haynes, pois seu estilo elástico e imprevisível combina perfeitamente com as composições de Hill.

O que torna esse disco especial é que ele não é exatamente hard bop, mas também não é free jazz. Andrew Hill cria composições com melodias angulares, ritmos inesperados e harmonias muito pessoais. Mesmo assim, a música nunca perde o swing.

"Pumpkin" abre o álbum de maneira quase enigmática. O tema parece torto à primeira audição, mas logo faz sentido, e Joe Henderson improvisa com enorme criatividade. "Subterfuge" é talvez a composição mais ousada do disco. O diálogo entre Hill e Roy Haynes é fascinante. "Black Fire", a faixa-título, é intensa e cheia de mudanças de direção, sem soar caótica. "Land of Nod" encerra o álbum de forma mais lírica, mostrando o lado contemplativo de Hill.
São 7 faixas ao todo, todas interessantes, mais 2 alternate takes.

Se você gosta de pianistas como Herbie Hancock, McCoy Tyner ou Cedar Walton, talvez estranhe Andrew Hill no começo. Ele evita soluções previsíveis: em vez de resolver as frases onde esperamos, ele cria tensão e a mantém por mais tempo. É justamente essa personalidade que faz dele um dos compositores mais originais da Blue Note dos anos 1960. E nada melhor que o álbum de estreia dele para conhecer esse grande artista que infelizmente nos deixou em 2007.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

René Marie - VERTIGO (2001)

René Marie tem uma das trajetórias mais fascinantes do jazz. Ela começou a cantar profissionalmente aos 42 anos de idade, após deixar um casamento abusivo de mais de duas décadas e abandonar uma religião restritiva. Ela se juntou à religião por volta dos 17 ou 18 anos de idade, adotando a mesma fé de seu então namorado (que logo se tornou seu marido). Por mais de duas décadas, ela seguiu rigidamente as doutrinas do grupo: As regras rígidas e os dogmas da congregação sobre o que consideravam "comportamento do mundo" a forçaram a parar completamente de cantar em público. Por 24 anos, sua voz ficou restrita a cantar em casa para os filhos.

Quando René completou 41 anos e decidiu que precisava voltar a cantar jazz, seu marido usou preceitos religiosos de submissão da esposa para tentar controlá-la. Ele deu um ultimato: ou ela parava com a música, ou deveria sair de casa. Ela escolheu a música, abandonando de vez o casamento abusivo de 23 anos e a própria religião para conseguir viver sua verdade artística.

Toda essa bagagem de repressão e libertação é o combustível emocional que ouvimos nas interpretações viscerais de "Vertigo". Lançado em 2001 pela MaxJazz, "Vertigo" é o segundo álbum de René Marie e a obra que a consolidou como uma das vozes mais audaciosas e artisticamente corajosas do jazz moderno. René Marie usa o álbum para pegar músicas extremamente conhecidas do público e virá-las do avesso, injetando uma voltagem emocional totalmente nova.

Na faixa inicial, "Them There Eyes", René começa a cantar apenas em cima de um duelo rítmico frenético entre o contrabaixo de Robert Hurst e a bateria de Jeff "Tain" Watts, sem piano para dar a harmonia. Em "Surrey With The Fringe On Top", canção tradicionalmente leve de um musical, René desacelera e a transforma em uma performance carregada de tensão e sensualidade. "Blackbird", que encerra o álbum, traz uma leitura misteriosa, minimalista e arrepiante do clássico dos Beatles, encerrando a jornada de audição de forma quase espiritual.

Mas o ponto mais visceral do disco é a junção ousada de "Dixie" (hino nostálgico do sul confederado e escravocrata dos EUA) com "Strange Fruit" (a dolorosa canção sobre linchamentos imortalizada por Billie Holiday). René mistura as duas de forma genial, criando uma crítica social impactante e arrepiante e transformando o racismo sistêmico em arte pura e desconfortável.

Além de interpretar, René brilha como compositora em três faixas autobiográficas: A faixa-título: "Vertigo" é uma composição autoral da própria René, onde ela canta sobre a sensação estonteante de perder o controle e se jogar na vida.. A música usa uma pulsação sincopada e um clima de jazz latino de tirar o fôlego, com solos brilhantes do saxofonista Chris Potter e do pianista Mulgrew Miller.

"I'd Rather Talk About You" e "Don't Look At Me Like That", outras músicas autorais, expõem vulnerabilidade, desejo e a firmeza de quem tomou as rédeas do próprio destino.

"Vertigo" é um trabalho exemplar, tanto artisticamente como tecnicamente (o cd é frequentemente usado pelos audiófilos para testar seus aparelhos) e que reúne composições inspiradas, uma interpretação eletrizante e uma produção sonora de referência. É daqueles álbuns raros que agradam tanto a quem busca emoção quanto a quem valoriza uma gravação impecável.

Donald Byrd - SLOW DRAG (1968)

O trompetista Donald Byrd ocupa um lugar de destaque entre os representantes do "Blue Note sound" dos anos '60, tendo gravado mais de 30 álbuns em seu nome, sem contar as inúmeras participações como sideman. Este disco representa um dos últimos suspiros do hard bop purista do músico, antes dele mergulhar de cabeça no jazz-funk e na fusão comercial dos anos 70.

Desde os primeiros segundos da faixa-título, Donald Byrd deixa claro qual é o objetivo aqui: construir um groove irresistível, daqueles que fazem o corpo balançar quase involuntariamente.

A abertura é simplesmente fantástica. Com quase dez minutos de duração, "Slow Drag" é uma celebração do swing em andamento relaxado, mas cheio de personalidade. A música avança sem pressa, permitindo que cada músico encontre espaço para desenvolver suas ideias. E, no meio dessa atmosfera descontraída, surge um detalhe que torna a gravação inesquecível: Billy Higgins.

O lendário baterista não se limita a marcar o ritmo. Em diversos momentos, ele faz comentários espontâneos, brinca, solta expressões como o famoso "your mama" e transforma a sessão em algo que parece uma reunião entre amigos. É um daqueles raros casos em que a descontração do estúdio foi preservada na gravação, acrescentando uma dose enorme de humanidade ao álbum.

Donald Byrd atravessava uma fase extremamente inspirada. Seu trompete combina elegância, precisão e um lirismo que nunca soa exagerado. Cada solo é construído com inteligência, valorizando a melodia tanto quanto a técnica. Byrd não sente necessidade de impressionar pelo excesso de notas; ele conquista o ouvinte pela beleza das frases e pelo domínio absoluto do tempo.

Ao seu lado está um quinteto de primeira linha. Sonny Red oferece um contraponto perfeito com seu saxofone alto de timbre levemente ácido e muito expressivo, enquanto Cedar Walton demonstra por que sempre foi um dos pianistas mais refinados do hard bop. Seu toque é sofisticado, econômico e cheio de bom gosto.

Na cozinha, Walter Booker e Billy Higgins formam uma seção rítmica impecável. Booker sustenta o groove com um contrabaixo firme e pulsante, enquanto Higgins entrega uma bateria repleta de balanço, criatividade e pequenas sutilezas que passam despercebidas numa primeira audição, mas fazem toda a diferença.

O repertório também merece destaque. As releituras de "Secret Love" e "My Ideal" revelam um Donald Byrd extremamente sensível, capaz de transformar standards conhecidos em interpretações elegantes e pessoais. Já "Book's Bossa", composta por Walter Booker e Cedar Walton, presta uma deliciosa homenagem à bossa nova sem perder a identidade do hard bop americano. E "Jelly Roll", de Sonny Red, acrescenta uma dose extra de energia ao álbum com um tema vigoroso e cheio de personalidade.

Gravado nos lendários estúdios de Rudy Van Gelder, Slow Drag apresenta a assinatura sonora clássica da Blue Note: instrumentos perfeitamente equilibrados, excelente definição e uma sensação de proximidade que coloca o ouvinte praticamente dentro da sala de gravação.

Talvez Slow Drag não seja o álbum mais famoso da vasta discografia de Donald Byrd, mas é certamente um dos mais prazerosos. É um disco que privilegia o groove, a interação entre os músicos e a alegria de tocar jazz sem qualquer afetação. O álbum exala um clima incrivelmente descontraído, recheado de soul e blues.

Mais de cinquenta anos depois, continua soando incrivelmente fresco. Poucos álbuns conseguem transmitir tão bem a sensação de cinco grandes músicos simplesmente se divertindo enquanto fazem arte, ao ponto que, os quase 39 minutos da gravação parecem voar e deixam com aquela vontade de "quero mais".

Giovanni Mirabassi Trio - LIVE @ THE BLUE NOTE, TOKYO (2010)

Alguns discos ao vivo registram um bom concerto. Outros conseguem transportar o ouvinte para dentro da plateia. Live @ The Blue Note, Tokyo pertence a essa segunda categoria. Desde os primeiros minutos, é possível sentir a atmosfera intimista de um dos clubes de jazz mais prestigiados do mundo e perceber que o trio vive uma noite de absoluta inspiração.

Gravado em abril de 2010, no lendário Blue Note de Tóquio, o álbum mostra Giovanni Mirabassi, Gianluca Renzi e Leon Parker tocando com um nível de sintonia que parece desafiar qualquer explicação. Não há exibicionismo, nem competição. Há apenas três músicos ouvindo uns aos outros com atenção absoluta e construindo a música em tempo real.

Quase todas as composições ultrapassam os oito minutos, permitindo que cada tema seja desenvolvido com calma, explorando nuances, silêncios e mudanças de dinâmica que só um grande concerto ao vivo consegue proporcionar. O resultado é um jazz que cresce lentamente, conquista o ouvinte e culmina em momentos de enorme intensidade emocional.

Leon Parker é um espetáculo à parte. Conhecido por sua abordagem minimalista da bateria, ele demonstra que criatividade vale muito mais do que quantidade de tambores e pratos. Seu kit reduzido produz uma variedade impressionante de timbres, enquanto o uso refinado das notas fantasma, dos acentos e dos espaços cria grooves hipnóticos. Em faixas como "Ny #1" e "Gold and Diamonds", fica evidente por que Parker é considerado um dos bateristas mais originais de sua geração.

No piano, Giovanni Mirabassi revela toda a influência de Bill Evans, mas sem jamais soar como um imitador. Seu fraseado lírico, profundamente melódico, carrega ecos da música clássica, da canção italiana e da chanson francesa. Há uma delicadeza constante em seu toque, mas também uma elegância rítmica que impede qualquer excesso de sentimentalismo.

Esse equilíbrio existe graças à seção rítmica impecável formada por Gianluca Renzi e Leon Parker. O contrabaixo de Renzi mantém tudo sólido e pulsante, enquanto Parker injeta um swing moderno, seco e extremamente preciso. A combinação cria um contraste fascinante: de um lado, o piano flutua com poesia quase impressionista; do outro, a bateria mantém a música firmemente conectada ao groove.

A qualidade da gravação merece destaque. É possível ouvir claramente a interação entre os músicos, a resposta calorosa do público japonês e até os pequenos detalhes da execução, tornando a experiência incrivelmente envolvente. É um daqueles discos que recompensam uma audição atenta, principalmente em um bom sistema de som.

Live @ The Blue Note, Tokyo é mais do que um excelente álbum ao vivo. É o retrato de um trio que alcançou um raro estado de equilíbrio entre técnica, emoção e comunicação musical. Cada solo parece nascer naturalmente da conversa entre os músicos, sem pressa, sem excessos e sem qualquer nota fora de propósito.

Para quem aprecia jazz contemporâneo acústico, sofisticado e profundamente humano, este álbum é uma pequena joia.

Steve Grossman - TIME TO SMILE (1994)

Considerado por muitos críticos como o ponto mais alto da carreira de Steve Grossman, o disco registra o saxofonista em plena maturidade artística. Gravado em Nova York em fevereiro de 1993 e lançado no ano seguinte pelo selo francês Dreyfus Jazz, o álbum é uma declaração de amor ao hard bop tradicional, em uma época em que o jazz seguia diversos caminhos. Grossman escolheu outro rumo: o da autenticidade.

Seu sax tenor é simplesmente impressionante. É impossível não perceber ecos de John Coltrane na intensidade e na profundidade harmônica, assim como a influência de Sonny Rollins na construção melódica e no senso de swing. Mas o mais interessante é que, em nenhum momento, Grossman soa como um imitador. Sua personalidade transborda em cada frase, com um timbre robusto, um fraseado extremamente fluido e uma energia que nunca sacrifica a beleza da melodia.

O repertório foi escolhido com enorme inteligência. A faixa-título, "Time to Smile", composição do pianista Freddie Redd, abre espaço para um dos momentos mais elegantes do disco. Grossman transforma a melodia em um longo discurso musical, alternando delicadeza e explosões de energia com absoluta naturalidade.

As composições próprias também impressionam. "415 Central Park West" e "Extemporaneous" revelam um músico que, além de grande improvisador, possuía uma voz muito particular como compositor. São temas sofisticados, mas acessíveis, que servem de plataforma perfeita para o talento de todo o grupo.

Entre os standards, Grossman oferece interpretações extremamente sensíveis de "I'm Confessin' (That I Love You)" e "Till There Was You". Em vez de reinventar essas canções, ele prefere explorá-las com respeito e enorme carga emocional, mostrando que maturidade também significa saber quando não exagerar.

O encerramento com "E.J.'s Blues", composição do lendário Elvin Jones, é simplesmente eletrizante. O quinteto parece tocar sem qualquer esforço, impulsionado por uma energia contagiante que resume perfeitamente o espírito do álbum. E que banda extraordinária.

No piano, Willy Pickens demonstra elegância e versatilidade, construindo bases sólidas e solos sempre inspirados. Tom Harrell participa de metade das faixas e acrescenta seu lirismo característico, dialogando com Grossman em momentos de rara beleza. Na seção rítmica, Cecil McBee oferece um contrabaixo firme e profundamente musical, enquanto Elvin Jones prova, mais uma vez, por que é considerado um dos maiores bateristas da história do jazz. Seu toque é vulcânico, cheio de nuances, capaz de incendiar a música sem jamais perder o controle.

A gravação também merece elogios. O som é limpo, natural e extremamente equilibrado. Cada instrumento ocupa seu espaço, permitindo apreciar tanto a força do tenor de Grossman quanto as sutilezas do restante do quinteto.

Time to Smile talvez nunca tenha alcançado a popularidade de alguns clássicos da Blue Note dos anos 60, mas isso pouco importa. Trata-se de um álbum atemporal, que demonstra como o hard bop ainda tinha muito a dizer nos anos 90. É um disco de músicos maduros, tocando sem vaidade, apenas colocando toda a sua experiência a serviço da música.

Para quem aprecia jazz acústico, intenso, elegante e profundamente humano, Time to Smile não é apenas uma excelente recomendação: é uma obra-prima escondida que merece ser descoberta e revisitada inúmeras vezes.

Stanley Turrentine - LOOK OUT! (1960)

Há discos que impressionam pela complexidade. Outros, pela inovação. E há aqueles que simplesmente fazem você sorrir desde os primeiros compassos. "Look Out!", estreia de Stanley Turrentine como líder na Blue Note, pertence a essa última categoria.

Se você ainda não conhece Stanley Turrentine, prepare-se para ouvir um dos sons de sax tenor mais inconfundíveis da história do jazz. Seu timbre é grande, quente e cheio de personalidade. O ataque tem força, mas nunca soa agressivo gratuitamente; cada frase carrega a alma do blues, da música gospel e do soul. Poucos saxofonistas conseguiram "cantar" através do instrumento com tanta naturalidade. E basta a faixa-título começar para entender que estamos diante de algo especial. "Look Out!" funciona como um cartão de visitas perfeito: swing contagiante, frases irresistíveis e um sax que parece conversar diretamente com o ouvinte.

Mas um grande líder também depende de grandes parceiros, e o quarteto reunido para esta sessão é impecável. No piano, Horace Parlan oferece um acompanhamento absolutamente único. Depois de sofrer poliomielite na infância, ele transformou uma limitação física em um estilo próprio, baseado em acordes sólidos e um senso rítmico extraordinário. Seu toque econômico e profundamente bluesy parece ter sido feito sob medida para dialogar com Turrentine.

Na cozinha, George Tucker (baixo) e Al Harewood (bateria) formam uma das seções rítmicas mais consistentes da Blue Note no início dos anos 60. Eles não procuram reinventar a roda. Em vez disso, sustentam o quarteto com um groove firme, elegante e cheio de balanço, deixando espaço para que o sax brilhe sem nunca perder o pulso.

O repertório mantém o nível do início ao fim. "Minor Chant" é uma daquelas faixas que ficam na cabeça por dias. O clima noturno, quase cinematográfico, combinado ao sotaque blueseiro de Turrentine, cria uma atmosfera hipnotizante. Já "Little Sheri" revela outro lado do saxofonista: delicado, romântico e incrivelmente lírico. O som do tenor aqui é puro veludo, provando que intensidade e suavidade podem coexistir na mesma voz.

Gravado nos lendários estúdios de Rudy Van Gelder, "Look Out!" exibe todas as qualidades sonoras que fizeram da Blue Note uma referência. O sax de Turrentine parece ocupar fisicamente a sala, com aquele timbre gordo, levemente áspero e absolutamente humano que tantas gravações digitais modernas têm dificuldade em reproduzir.

Mais de seis décadas depois, "Look Out!" continua soando fresco, espontâneo e irresistível. É um álbum que não tenta impressionar pelo virtuosismo, mas pela musicalidade. Cada solo tem propósito, cada tema balança naturalmente, e o quarteto toca com uma química que faz tudo parecer fácil.

Se você gosta de jazz com alma, groove e melodias que permanecem na memória muito depois do álbum terminar de tocar, "Look Out!" é uma audição obrigatória. Stanley Turrentine já chegou à Blue Note como um mestre. E que estreia extraordinária foi essa.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Chet Baker - CHET (1959)

"Chet" é uma verdadeira obra prima do cool jazz e da sensibilidade musical. O álbum, gravado pelo trompetista norteamericano em 1959, entrega um clima de intimidade e introspecção. O que torna esse álbum especial é o fato que não é apenas um disco de um solista, mas uma conversa sussurrada entre gigantes.

O sax baritono de Pepper Adams, embora naturalmente robusto e pesado, é tocado com delicadeza, casando perfeitamente com o sopro aveludado e sem vibrato do trompete do Chet. O piano de Bill Evans é uma aula de economia e bom gosto. Ele não atropela nenhuma nota, criando os espaços e as harmonias ideais para o Chet flutuar.

A guitarra sutil de Kenny Burrell e o pulso firme e preciso do Paul Chambers no contrabaixo dão aquela sensação de veludo que envelopa o disco inteiro. Faixas como "Alone Together" e "It Never Entered My Mind" são de arrepiar. A faixa 2, "How High the Moon", é um verdadeiro oásis de swing leve dentro de um disco majoritariamente dominado por baladas lentas e melancólicas. A guitarra de Kenny Burrell abre o caminho com acordes muito limpos e balançados. O solo de Bill Evans aqui é incrivelmente melódico e rítmico. Ele responde ao trompete lírico do Chet com frases que parecem flutuar sobre a condução precisa da bateria de Philly Joe Jones. É uma interpretação que foca no frescor e na beleza da melodia, sem a agressividade do bebop tradicional.

Tanto Chet Baker como Bill Evans estavam profundamente mergulhados no vício da heroína durante essas sessões (gravadas entre dezembro de 1958 e janeiro de 1959). Naquela virada de ano, o vício de Chet já controlava a sua vida. Ele andava pelos estúdios de Nova York devendo dinheiro para traficantes e, muitas vezes, debilitado fisicamente. O produtor Orrin Keepnews relatou mais tarde que trabalhar com Chet nessa época era tenso, pois ele podia simplesmente não aparecer ou sumir no meio das gravações. No entanto, quando colocava o trompete na boca, a genialidade dele de alguma forma se sobressaía ao caos pessoal.

Bill Evans foi introduzido à heroína justamente no final dos anos 50. O mais irônico e trágico dessa história é que quem apresentou a droga a Bill Evans foi ninguém menos que Philly Joe Jones — o baterista que toca com ele neste exato álbum. Evans tinha profunda admiração por Philly Joe, o que facilitou o terrível primeiro contato.

A atmosfera no estúdio era fria. Bill Evans era um músico obsessivo, extremamente cerebral, focado na teoria musical complexa e muito reservado. Já Chet Baker tocava puramente por ouvido, instinto e intuição, quase sem ler partituras, guiado pelo puro lirismo.

Evans, além de sofrer com os seus próprios demônios e crises de abstinência, achava o desleixo e a falta de disciplina profissional de Chet irritantes. Por causa disso, embora a química musical entre eles tenha gerado essa obra-prima, eles mal se falavam nos bastidores. O clima era de puro profissionalismo silencioso sustentado por gigantes que se respeitavam musicalmente, mas que estavam destruindo as próprias vidas fora dali.

Mesmo com toda essa bagagem pesada e sombria por trás das cortinas, a música que sai das caixas de som é de uma paz e beleza celestiais. É o mistério do jazz: transformar a dor e o caos em pura poesia sonora. Álbum imperdível.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

DR VERITAS ACOUSTIC GUITAR STRINGS REVIEW


Uma das vantagens da globalização e da internet é que hoje é possível ter praticamente tudo ao alcance de um click. Depois de descobrir o site americano Stringsbymail, que entrega no Brasil por um frete inferior a muitos sites nacionais não tive dúvidas: comprar cordas no Brasil nunca mais! Além de poder comprar as melhores marcas, pela metade ou menos do preço temos também a chance de experimentar e adotar cordas de marcas que aqui no Brasil não são facilmente encontradas. Assim, na jornada rumo à corda ideal, resolvi dar uma chance para as DR VERITAS.
DR é um fabricante de cordas americano conhecido aqui no Brasil principalmente pelas cordas para baixo, mas na verdade o catálogo desta marca possui propostas muito interessantes para violão e guitarra também.
O que me instigou bastante a comprar as VERITAS foi a declaração de que estas cordas duram até 4 vezes mais comparado com as outras marcas graças a uma tecnologia que melhora a qualidade do fio interno (wire) resultando em intonação mais precisa e maior duração. As VERITAS Extra Light (0.10 - 0.48) são cordas handmade, feitas de bronze fosforoso e não encapadas. O que mais chama a atenção de imediato é um sustain longo e um timbre cristalino. Parece que estas cordas projetam o som muito mais que as Martin Marquis, só para dar um exemplo. Realmente fiquei impressionado com a claridade delas, tanto no strumming como no fingerpicking. Apesar de serem cordas extra-leves, achei elas um pouco duras ao toque. Esse foi o único defeito que encontrei, mas temos que reconhecer que a dureza é característica comum em muitas cordas de bronze e bronze fosforoso construídas com núcleo em forma hexagonal.
No geral posso afirmar que, como timbre e sustain, as VERITAS são as melhores cordas que toquei até agora. No quesito duração elas também são excelentes: estão tocando há mais de 2 meses e ainda tem ótima clareza e brilho. Meu único cuidado é passar uma flanela depois de tocar. Quanto à afinação, elas mantém bem.
Paguei pouco mais de US$ 7,00 nessas cordas e mesmo com o frete, comprando vários sets, o custo sai bem mais em conta do que comprar cordas aqui no Brasil, sem contar a diferença de qualidade!
Enfim, as DR VERITAS são um excelente jogo de cordas com timbre, sustain e durabilidade superiores.
Recomendo!

TIMBRE: 9/10
SUSTAIN: 9/10
TOCABILIDADE: 6/10
DURABILIDADE: 8/10

(Pós post) Esse jogo de cordas durou 4 meses antes de perder brilho e volume. Troquei por um jogo da S.I.T. (011-050) que avaliarei em seguida.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

TUDO (OU QUASE) QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE CORDAS DE VIOLÃO DE AÇO


COMO ESCOLHER AS CORDAS PARA O VIOLÃO

Quanto o tipo de corda usada pode fazer a diferença no som do violão?
Quais são as características que precisamos considerar ao comprar um encordoamento? Com que frequência precisamos trocar as cordas?
Esse post irá responder essas perguntas.

Antes de começar gostaria de dizer que essas considerações são frutos de experiência pessoal. Portanto elas refletem minhas opiniões e não constituem verdades absolutas. Até porque no exterminado mercado de instrumentos e acessórios, no final das contas muito é questão de gosto pessoal.
Dito isso podemos afirmar que as cordas, assim como outros acessórios (palhetas por exemplo) contribuem ao resultado final, ou seja o som que iremos obter do instrumento. Lógico que o maior responsável pelo som do violão é a madeira utilizada e a construção (cutaway, dreadnought, etc.). É claro que um violão construído com tampo em madeira maciça (solid top) terá um som mais encorpado e com mais projeção que um em laminado, assim como cada tipo de madeira traz características peculiares ao som.
Mas vamos às cordas. Existem três elementos fundamentais que é preciso avaliar na escolha do encordoamento:

1- MATERIAL
2- CALIBRE
3- CONFORTO
4- CONSTRUÇÃO


MATERIAL: no mercado das cordas para violão de aço existem inúmeras opções para todos os gostos. As cordas em BRONZE (80/20) são as mais antigas no mercado e são perfeitas para quem deseja um som forte e brilhante. Normalmente violões que possuem som quente, como os dreadnoughts da Martin ou da Taylor combinam bem com esse tipo de corda. São compostas de 80% de bronze e 20% estanho e têm cor tendente ao amarelo.

As cordas PHOSPHOR BRONZE possuem um som mais quente e menos metálico que as de bronze. Foram introduzidas no mercado pela D'Addario em 1974, e, apesar de mais recentes se tornaram rapidamente as mais populares. Sua composição é 92% bronze, cerca de 8% estanho e uma pequena porcentagem de fósforo e a cor é avermelhada. O fósforo tem o poder de oferecer proteção contra os elementos e isto resulta nas cordas phosphor bronze terem uma duração maior comparado com as de bronze. Normalmente combinam com violões cujo som tende ao brilhante, como os Takamine por exemplos, ou em geral violões em laminado, ajudando a equilibrar o som que carece de corpo nas baixas frequências.
Existem também as cordas "Silk And Steel" cuja característica é um som mais suave e uma menor tensão que as torna mais fácil de tocar, especialmente para quem toca fingerpicking. Em volta do fio de aço elas possuem uma camada de filamentos de nylon que dá uma sensação muito mais suave ao tato e que age como uma espécie de almofada amortecendo o som. Estas cordas são as que desgastam mais rapidamente.
Outra características que as cordas (tanto bronze quanto phosphor bronze) podem possuir é o revestimento (coating). Trata-se de uma camada de material protetivo que prolonga a vida útil das cordas, em alguns casos até 3 vezes a normal duração. Muitos porém argumentam que este revestimento tira um pouco do brilho das cordas. No fim, é mais uma questão de preferência pessoal.

CALIBRE: O tamanho das cordas é outro fator importante:
Os encordoamentos se dividem (podendo ter mínimas variações) em:

Extra light: .010 .014 .023 .030 .039 .047
Custom light: .011 .015 .023 .032 .042 .052
Light: .012 .016 .025 .032 .042 .054
Medium: .013 .017 .026 .035 .045 .056
Heavy: .014 .018 .027 .039 .049 .059

Cordas grossas possuem mais material para vibrar e portanto tocam mais alto. Mas ao mesmo tempo elas exercem uma tensão maior sobre o braço do violão resultando em cordas duras para tocar. São mais apropriadas para quem faz acompanhamento (strumming) e não muito para quem por exemplo está acostumado com a guitarra e quer usar o violão para fazer solos com bends, etc.
Cordas de maior tamanho também são indicadas para quem toca fingerpicking.
Cordas muito finas têm menor projeção do som, mas ao mesmo tempo também menor tensão sobre o braço do violão, sendo mais confortáveis de se tocar. Algumas marcas fabricam até cordas .009 para violão, no caso dos guitarristas mais radicais que não querem renunciar aos bends e aos solos rápidos.
Para quem é iniciante, um bom compromisso são as cordas .010, podendo eventualmente passar para .011 caso se deseje maior volume no som. Ao trocar as cordas procure sempre colocar tamanho correspondente a das cordas velhas. Caso contrário você terá que regular o braço do violão através do truss rod (por exemplo ao passar de um encordoamento .010 para um .011).
É bom usar cordas não muito grossas também em violões antigos ou vintage cujo braços possam sofrer com uma tensão muito alta.

CONFORTO: O conforto (Playability) é algo extremamente subjetivo e que depende de vários fatores, entre os quais largura do braço, tamanho das cordas, tipo de música tocada, etc. Portanto é impossível dizer que uma corda é ideal para todas as situações e para todo tipo de violão. É preciso ir experimentando cordas de tamanho, marca e material diferente, até chegar na corda que mais se aproxima do "ideal".

CONSTRUÇÃO: O padrão para cordas para violão de aço presentes no mercado é HEXACORE, ou seja, o filamento do núcleo da corda tem forma hexagonal. Este tipo de corda geralmente tem uma tensão forte e resulta dura ao tato. Mas existe outro tipo de corda, que só algumas marcas produzem e chamada de ROUND CORE, onde o filamento do núcleo é arredondado, para ter 100% de contato do fio envoltório com o filamento do núcleo, proporcionando alta sustentação e um som mais vintage. Esse tipo de corda costuma apresentar tensão menor a paridade de calibre, portanto resulta mais macia de tocar, possibilitando bends com mais facilidade.
Exemplos de cordas ROUND CORE são as MARTIN FX FLEXIBLE CORE SILK AND PHOSPHOR e as DR SUNBEAMS. São aconselhadas para iniciantes ou para quem passa do violão com cordas de nylon para as de aço e para quem deseja cordas mais macias que não machucam os dedos.


COM QUE FREQUÊNCIA PRECISAMOS TROCAR AS CORDAS?
Aqui também a resposta é: DEPENDE. Se você toca muito e faz shows ao vivo é importante que suas cordas tenham sempre bom timbre e brilho. Portanto é recomendado trocá-las com mais frequência, digamos uma vez por mês ou até uma vez a cada 15 dias. Se você não toca tanto assim, as cordas podem durar até 2 ou mais meses. Alguns sinais de que as cordas estão "morrendo" são quando elas ficam pretas e os dedos também ficam marcados de pretos depois de tocar, o som que fica"surdo", sem brilho ou pior ainda, ferrugem (especialmente nas cordas de aço).
Alguns cuidados que podem prolongar a vida útil das cordas são: antes de tocar lavar sempre as mãos com sabão. Depois de tocar, limpar as cordas usando um pano (possIvelmente de microfibra) que não solte fiapos e aliviar a tensão nas tarraxas (desafinando o violão) o suficiente para podê-las levantar e passar o pano em volta delas da ponte até o nut corda por corda. Também é um bom hábito repor o violão no case, evitando que as cordas fiquem expostas ao ar e à poeira, etc. Fazendo isso se evita o acumulo de sujeira debaixo das cordas.
Existem também produtos específicos para limpeza de cordas como o GHS Fret, o XLR8 da Planet Waves, o Cleaner da Dunlop, etc. que dão resultados bons, mas é bom considerar que nenhum deles faz o milagre de trazer de volta à vida o som de uma corda enferrujada ou já morta.
Alguns usam produtos como o WD-40 ou outros óleos anti-corrosivos spray, passando um pouco em um pano e passando o pano nas cordas, cuidando para não deixar esse óleo entrar em contato na madeira do violão e da escala (sempre melhor não arriscar!) e isso ajuda também.
É óbvio que a melhor solução continua sendo a troca para um novo encordoamento.
Também um bom hábito é, ao trocar o encordoamento, fazer a limpeza da escala e dos trastes do violão. Existem vários vídeos no YouTube sobre como fazer isso.
Por enquanto é isso. Proximamente irei testando e avaliando marcas de cordas e postarei aqui minhas impressões.
Boa música à todos!

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Peter Gabriel -"So"

Desde a foto na capa é evidente a vontade do artista de se expor em primeira pessoa, sem uso de máscaras, camuflagens ou imagens distorcidas. A foto, simples e limpa sobre o fundo branco, que mostra o rosto de Peter Gabriel ao natural, livre de artefatos ou máscaras angustiantes, contrasta fortemente com as dos álbuns anteriores: parece transmitir serenidade e convidar a descobrir o "verdadeiro eu" do artista.
Excluindo a trilha sonora de "Birdy" de 1984, já se passaram 4 anos desde "Security", o último trabalho do ex vocalista do Genesis, álbum caracterizado pelo uso pesado de sintetizadores e drum machines.

Estamos em 1986 e muitas coisas aconteceram no percurso artístico de Peter Gabriel. Em primeiro lugar o encontro com o fascinante patrimônio musical africano. Este é o fator que mais influencia as composições de "So". Começando pela escolha dos músicos e da instrumentação: na bateria e nas percussões se destaca o jovem Manu Katche, francês de origem norte-africana que introduz o uso dos "talking drums". Estes tambores, assim chamados porque imitam os sons da lingua africana, permitem criar uma variedade de tons apenas apertando ou liberando as cordas no tambor enquanto estiver tocando. No baixo Tony Levin é garantia de que a música tenha sólidos alicerces; uma seção de sopros comandada por Wayne Jackson do lendário Memphis Horns provê amplo respiro para as composições; David Rhodes, com Gabriel desde 1980, continua no violão; piano, violino, sintetizador, percussões de todo tipo (surdo, pandeiro, congas, triângulo) e backing vocals ampliam o leque de possibilidades sonoras exploráveis e oferecem ao ouvinte uma amalgama de sons variados e sempre interessantes.

O álbum começa com a esplêndida "Red Rain", inspirada por um sonho recorrente de Gabriel: um pesadelo de mares tempestuosos que se transformam em uma chuva devastante e liberatória. Segundo o autor, a chuva vermelha representa todos aqueles sentimentos e pensamentos reprimidos do ser humano que mais cedo ou mais tarde voltam à tona. A voz de Gabriel flutua sobre o baixo hipnótico de Levin, o piano imponente tocado pelo próprio Gabriel e a bateria de Jerry Marotta, para conduzir a um final só voz e piano muito intimista.

"Sledgehammer" é a faixa mais famosa do disco, responsável pelo enorme sucesso comercial de "So". Com a seção de sopros em destaque, um beat irresistível e uma letra claramente alusiva, nas intenções de Gabriel devia ser uma homenagem a certa música soul dos anos '70, de gravadoras como Atlantic e Stax, que ele curtiu muito durante sua adolescência.

"Don't give up", em duo com Kate Bush, intimista e melancólica, é uma canção que traz uma mensagem positiva: nunca desista da vida, mesmo nos momentos mais tristes. Interessante que Elton John declarou que ouvir esta música o ajudou a sair da depressão e largar definitivamente o vício das drogas.

O lado A (porque é de vinil que estamos falando) se conclui com "That voice again", nada de especial, talvez o ponto mais fraco do álbum do ponto de vista compositivo.

A segunda parte do disco começa com a belíssima "In your eyes", onde piano e guitarra realmente grudam no ouvido durante o chorus. A forte base percussiva e a participação vocal de Youssou N' Dour dão um tom de world music a esta composição. "In your eyes" consegue transmitir uma força emotiva extraordinária.

"Mercy street" é outra música bem introspectiva que conta a história de Anne Sexton, uma mulher que, internada por distúrbios mentais, resolveu escrever um livro de poemas e depois de quatro tentativas de suicídio falidas, conseguiu pôr um trágico fim a própria vida angustiada. Provavelmente a música mais sombria do álbum, mas ao mesmo tempo altamente evocativa e de rara beleza.

"Big time" segue musicalmente um pouco na onda de "Sledgehammer", embora não tão contagiante, com uma guitarra funky no lugar dos sopros, os teclados em evidência e Stewart Copeland atrás dos tambores. É uma visão sarcástica sobre a necessidade humana de alcançar o sucesso a qualquer custo.

"We do what we are told", composição muitas vezes executada ao vivo e já conhecida pelos fãs de Peter Gabriel, é aqui finalmente gravada de forma oficial, com sonoridades que lembram o King Crimson de Robert Fripp e certo tipo de música que Bjork gravaria uma década mais tarde.

A última faixa, que curiosamente não é mencionada na track list da back cover do disco, "Excellent birds", é uma boa canção escrita em colaboração com Laurie Anderson.

Para os puristas e os amantes das definições e dos rótulos "So" resulta um disco de difícil colocação, enquanto muito distante das atmosferas prog-rock do Genesis, e não exatamente aquilo que se espera de um disco de pop ou de rock.
Para os amantes da música em geral, "So" é um álbum essencial, rico de sonoridades interessantes que conseguem ir além da época em que foi gravado, aqueles anos '80 muitas vezes alvo de duras críticas. A música nele contida é de fácil acesso e representa o ponto mais alto da carreira de Peter Gabriel.

A produção de Daniel Lanois é ótima e o vinil tem um som espetacular. O disco, que vendeu milhões de cópias, se encontra facilmente na edição original de 1986 pela Virgin e também na re-edição atual em 180g pela Real World Productions.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

The thin red line (Além da linha vermelha) Resenha


Desde as primeiras cenas a narrativa do filme me lembrou muito do "The tree of life", com a voz fora de campo fazendo perguntas retóricas sobre a vida, a morte e tudo que há no meio. De fato, sem que eu soubesse, Terrence Malick é o diretor de ambos os filmes.
Detestei "The tree of life", de 2011. Achei muito pretensioso e sem rumo, embora a fotografia dele seja fenomenal mesmo, beirando níveis de referência absoluta como "Baraka" (só para dar um exemplo).
Mas gostei muito de "The thin red line".
Em 2 horas e 45 minutos este filme de 1998 desenvolve o drama da guerra através da voz dos protagonistas: um grupo de soldados americanos empenhados na sangrenta batalha de Guadalcanal na segunda guerra mundial.
O filme consegue, até melhor que "Saving private Ryan", capturar o desespero, a loucura, a angustia, a dor, e todos os outros sentimentos, quer ditos quer tácitos, dos envolvidos no conflito. Nas entrelinhas "The thin red line" fala mais alto que "Saving private Ryan", que continua sendo meu filme de referência no quesito "filmes de guerra".
É um páreo duro: a fotografia, a qualidade de imagem e as cenas de ação são incríveis em ambos os filmes, com uma levíssima vantagem para "Private Ryan" (a cena da batalha na praia da Normandia continua inalcançada até hoje).
Por outro lado, "The thin red line" oferece mais pontos para reflexão, com personagens mais marcantes, entre os quais Sean Penn, Jim Caviezel, John Cusack, Nick Nolte, Adrien Brody.
Se não houvesse a voz fora de campo com suas perguntas retóricas ("por que nos tornamos assim?", "quem nos separou?", "de onde vem o mal?",etc.) e o lance de "after life", que francamente achei em excesso e pelo visto é característica marcante do diretor, arriscaria colocá-lo no topo. Infelizmente precisa contentar-se com o segundo lugar, junto com "Hacksaw Ridge".
Mesmo assim o filme contém uma poderosa mensagem sobre a inutilidade e os horrores da guerra. Um retrato fiel da alma humana, com suas virtudes e sua podridão.
Vale muuuito a pena assistir!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Porque ouvimos e colecionamos discos de vinil


Falar sobre as próprias paixões é algo extremamente nobre. Compartilhar nossos sentimentos representa também uma maneira de prolongar o prazer que o objeto de nossa paixão nos proporciona.

O disco de vinil originariamente cumpria uma dupla função: a principal, ou seja a de meio de fruição da música, e a secundária, de objeto, frequentemente também de valor artístico e visual, ao qual atar momentos, lembranças e situações emotivas.
Uma coleção de lps é de fato uma coleção de memórias: é fácil, ao puxar um álbum adquirido 20 ou 30 anos atrás, reviver, às vezes nitidamente, o momento em que foi comprado ou até mesmo o "mood", a atmosfera ligada a ele. Um pouco como as "madeleines", bolinhos em forma de concha que ativaram as reminiscências do escritor francês Marcel Proust inspirando-o a escrever o romance "Em busca do tempo perdido", um dos principais clássicos da literatura mundial. Porque, por mais "piegas" que isso possa parecer, muitos momentos do passado têm um sabor irresistível.
Não podemos esquecer também o gesto de tomar posse de um fragmento de história, uma lasca tangível do tempo que foi: encontrar um velho disco e apossar-se dele equivale a trazer para dentro de casa uma partícula do passado, não necessariamente vivido por nós, em um gesto que é, ao mesmo tempo, celebração do presente e nos torna cúmplices de eventos já desbotados no fluxo do tempo que corre.
São todos elementos de grande valor emotivo que no estado atual das coisas prevalecem sobre o lado prático relacionado com a existência do disco: portanto o disco não é mais apenas um suporte musical (a tecnologia oferece soluções mais práticas), mas acima de tudo um coletor de memórias e sensações, uma espécie de demiurgo da mente.

O disco tem um som delicado nos graves, doce nos médios e aberto nos agudos que afasta anos de compressão selvagem intencionada a por todas as frequências em primeiro plano. No vinil a música respira e vive na dinâmica, que foi a maior vítima dos suportes digitais.
Apoiando a agulha nos sulcos, o disco te obriga a um respeito pela música que de outra forma você não teria e, justo pela delicadeza desta manobra, é impossível o avanço rápido e selvagem característico do áudio em streaming ou do mp3.
Cada mínima partícula de pó influi na música, modificando-a, tornando a audição cada vez única. Quando o disco está muito sujo, é necessário cuidar dele, limpá-lo. É o equivalente áudio do cinema em película. Em uma palavra: mágico.
Mesmo quando ele "pula", cria o paradoxo de fazer você interagir fisicamente com o som, que é abstrato, pedindo sua atenção. É um equilíbrio muito frágil, que dura desde que foi inventada a reprodução do som. Você se sente parte de uma maravilha atemporal.
Tudo isto tem um custo. Se você achar ruim, deveria pensar duas vezes. Desde que usufruímos mais ou menos livremente de toda a discografia de um artista ao alcance de um "click", a música se tornou (não só isso, mas também) database, estatística, passatempo. Quando, ao contrário, você paga pela música, você lhe atribui um valor que te obriga a aproximar-te dela de forma diferente, não mais como algo de corriqueiro, mas algo que vale um preço, que custa uma renúncia. Você é levado a uma escolha (não é possível comprar tudo!) portanto implicitamente a pensar. Quando você escuta um disco pelo qual você gastou dinheiro, você mantém uma atenção que normalmente não tem para uma playlist do Spotify ou um álbum baixado.
Este é o verdadeiro motivo pelo qual nos lembramos perfeitamente da música escutada anos atrás: não porque era mais bonita; simplesmente tínhamos menos discos e os ouvíamos até consumi-los.
A capa, a contracapa, a foto gigante no meio, as ilustrações, as letras, tudo é do tamanho certo para poder ser apreciado plenamente. Não uma adaptação, mas sim um trabalho original, algumas vezes uma verdadeira obra de arte visual.
O disco toca até sem volume, e é aí que está a maravilha: a agulha cria o som mesmo sem amplificação, só trilhando os sulcos. Você aproxima os ouvidos ao disco e ao ouvir aquele som parecido com um gramofone distante você percebe que a musica nasce dali, de um lugar físico. Ela pega forma. Cada faixa possui seu valor: você pode vê-las graficamente esculpidas nos sulcos. Você pode perceber a duração delas e pode entender se uma música começa lenta ou com poucos instrumentos, para depois ganhar intensidade. Você pode ver a música antes de escutá-la.
O disco de vinil é uma forma de apossar-se fisicamente da música. Uma coleção de discos diz quem você é, conta sua história. Por isso os discos são sagrados e precisam ser guardados como coisas preciosas. Não se vendem, não se trocam e nem deveriam ser emprestados.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Coisas para se fazer em Denver quando você está morto"

"Coisas para se fazer em Denver quando você está morto" não obteve muito sucesso na época de seu lançamento em 1995, cúmplice um pouco a "febre" por Tarantino, que com "Pulp fiction" em 1994 havia revolucionado o modo de fazer cinema, e que praticamente monopolizava o interesse de público e crítica naqueles anos.
Contudo, esse filme de Gary Fleder ("Refém do silêncio", "O Juri"), que passou despercebido, merece ser assistido e avaliado positivamente por vários motivos.
Primeiro pela trama.
Jimmy "o Santo" é um empresário interpretado magnificamente por Andy Garcia, talvez no melhor papel da carreira, junto com o de "Internal affairs" ("Justiça cega"), onde divide a tela com Richard Gere.
Os negócios (bastante peculiares) não estão indo bem para Jimmy, embora ele disfarce exibindo um corte de cabelo impecável, esbanje sorrisos e otimismo irresistíveis no rosto e use ternos elegantes. Contudo ele mantém em vida o sonho de poder, um dia, comprar uma lancha e mudar-se para longe de Denver.
Embora hoje ele tente sobreviver honestamente, guarda na gaveta um passado como gangster de todo respeito (o apelido "Santo" vem dele ter frequentado o seminário quando jovem, até perder a vocação e entrar no mundo do crime).
Para salvar sua empresa, endividada até o pescoço, ele se vê obrigado a aceitar executar um "trabalho", na verdade uma "coisinha simples", para o chefão do crime local. Poderia agir sozinho, mas prefere convocar os companheiros dos velhos tempos, que também financeiramente não navegam em boas águas. No meio da operação um imprevisto acontece, a situação precipita e Jimmy, terá que repensar na sua vida e correr atrás do prejuízo. Sentindo-se responsável, tentará salvar o que for possível e consertar os erros cometidos.
O elenco inclui, além da grande atuação de Andy Garcia, que literalmente dá vida a um personagem melancólico, mas ao mesmo tempo provido de bom coração e cheio de alegria (e é impossível não gostar dele!), um notável Christopher Warden, que interpreta o chefão mafioso paraplégico, o tempo todo em uma cadeira de rodas. Um personagem azedo e cínico, amargurado pela vida, que parece ter sido muito má com ele: além da enfermidade, teve que passar pelo falecimento da esposa amada e hoje, o único laço familiar que sobrou-lhe, é o do filho, um garotão seriamente retardado, que vive arrumando-lhe problemas. Da sua mansão,onde vive constantemente assistido por uma enfermeira supersexy e cercado pelos seus capangas, ele controla seus negócios criminosos.
Gabrielle Anwar (a atriz que dança o tango na famosíssima cena com Al Pacino em "Perfume de mulher") esbanja juventude e sensualidade ao interpretar Dagney, a linda jovem que conquista o coração de Jimmy. A química entre Gabrielle e Andy é muito boa, o casal protagoniza algumas cenas memoráveis.
Todos os personagens são bem construídos, ao ponto de alguns parecerem personagens de quadrinhos, com características peculiares mas não estereotipados. O diretor desenvolve com grande habilidade o psicológico deles.
"Critical" Bill (Treat Williams), um dos parceiros de Jimmy, é um brutamonte violento e asqueroso com sérios distúrbios mentais que treina boxe batendo em cadáveres; Olden (Christopher Lloyd, o "Doc" de "De volta ao futuro", o mais idoso da turma, ganha a vida projetando filmes em um cinema pornô; Lucinda (Fairuza Balk) é uma jovem prostituta que sonha em um dia ter um filho com Jimmy e vive pedindo dinheiro emprestado; Steve Buscemi é perfeito como killer silencioso e frio, a morte personificada, uma figura dificilmente esquecível, mesmo tendo importância marginal no contexto da história.
É muito interessante assistir à luta que os personagens terão que travar para arcarem com as consequências das próprias ações e que os levará para os próprios destinos.
Outro elemento de destaque deste filme é a linguagem muito peculiar, repleta de gírias e expressões quase incompreensíveis e de difícil tradução ("boat drinks", "mammy-rammer", "give it a name", "buckwheats"), os diálogos afiados e crus que tornam a história mais real e às vezes puramente trash. Algumas falas são inesquecíveis ("Eu sou Godzilla, você é o Japão!")
Mas atenção: não se trata apenas de mais um filme de gangsters ou de pura ação. Nas cenas e no desenvolver dos eventos é recorrente o tema da fragilidade da vida, da frustração da mortalidade e a angustia da iminência da morte, o que leva a refletir sobre nossas ações, sobre nossa existência, não apenas na dimensão presente dos fatos cotidianos mas também em perspectiva futura, visando o tempo em que não mais estaremos aqui.
Com muito bom gosto Fleder insere na trilha sonora algumas pérolas de Tom Waits, Johnny Cash, Morphine e Buddy Guy, que muito oportunamente ajudam a descrever algumas cenas de forma mais viva e dinâmica.
Sem mencionar a cena final, tão linda que chega a dar um aperto no peito.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O pulo do gato na limpeza dos discos de vinil (custo/benefício impressionante!!!)

É um fato inegável: a reprodução musical depende muito das condições dos suportes áudio que contém as informações sonoras. Um cd arranhado, um disco de vinil sujo ou até mesmo um pen drive ilegível podem tornar a audição de música um pesadelo quando na realidade deveria ser um prazer.
Pensando em som analógico (os bons e velhos bolachões) desenvolvi esse guia que espero possa ser de ajuda na busca do melhor som possível.
Como já escrevi em outro post, existem inúmeras maneiras de limpar os discos de vinil, e todas buscam o mesmo objetivo: tornar a experiência analógica o mais prazerosa possível. Um disco de vinil, se bem cuidado e em boas condições pode proporcionar um som de altíssima qualidade. Ao contrário do que muitos pensam, os "bolachões" podem manter uma qualidade de som excelente por dezenas de anos, desde que limpos e armazenados em condições ideais. Aqui vou ensinar o método de limpeza que realmente representa o "pulo do gato", que garante resultados comparáveis aos obtidos por lavagem com máquinas profissionais tipo VPI, Nitty Gritty, etc. E isso com uma relação custo/benefício INACREDITÁVEL!
Trata-se de um sistema baseado (como as máquinas acima) em SUCÇÃO. Esse sistema é de fácil realização e garante o mesmo resultado que as máquinas de lavar vinil e o melhor é que você não precisa gastar centenas de dólares por isso!!!
Discos de vinil na maioria dos casos costumam ter uma certa idade. Pela próprias natureza a tendência é acumular estática, poeira, sujeira de todos os tipos e às vezes até mofo que se deposita nos sulcos microscópicos, às vezes de forma invisível, causando uma reprodução cheia de interferências e um som abafado com graves embolados e agudos pouco extensos.
O que é pior é que muitas vezes até discos que ao olho nu o disco se apresentam limpos, sem riscos ou arranhões, mesmo apesar de todo tipo de lavagem, na hora de tocar são um desastre. O som não sai limpo. Isso é porque os demais métodos de limpeza que não sugam a sujeira dos sulcos dos discos não fazem mais do que espalhar a sujeira da superfície de um lugar para outro no disco. Por isso o som continua ruim.
Aqui está o segredo: a SUCÇÃO. Nesses últimos dez anos tentei de tudo (às vezes com discretos resultados), mas nunca encontrei um método que transformasse o som dos discos de vinil tão radicalmente como esse que estou postando aqui.
Em primeiro lugar quero deixar bem claro que esse método não serve para discos surrados, cheios de arranhões ou riscos profundos (contra esses não há remédio, portanto cuide de seus discos!!!), mas com certeza vai dar nova vida àqueles discos sujos ou até mesmo que aparentam estar limpos e que paradoxalmente tem um som horrível, cheio de "plocs", ruídos e com médios/agudos abafados. Esse sistema devolve o prazer do mais puro som analógico. E o legal é que isso pode ser obtido com uma despesa realmente irrisória!

Tudo que você precisa é:
- Um aspirador de pó e água
- Dois borrifadores
- Álcool isopropílico
- Detergente neutro para louça (tipo Ypê, Minuano, Limpol,etc.)
- Água destilada ou deionizada ou purificada (se encontra em farmácias ou postos de gasolina e lojas de produtos automotivos)
- Um pincel de cerdas macias (daqueles usados para pintar paredes, madeira, etc). Eu uso um de 3-4 cm de largura.
- Um pano de microfibras (mas se não tiver não importa)
- Tiras de feltro adesivas (se encontram em lojas de material de construção e são bem baratas)
- Uma superfície lisa que não possa ser aspirada sobre a qual apoiar os discos.

Agora vamos ao trabalho!
Pegue uma terminação de aspirador (eu uso uma em forma de "t", a da foto) e corte tiras de feltro adesivo retangulares para que cubram a inteira extensão da ponta (o aspirador tem que passar na superfície do disco sem causar o mínimo arranhão). Certifique-se de não obstruir o canal aspirante e que o feltro esteja bem fixado ao plástico da ponta do aspirador. Faça um teste passando o aspirador (ligado, obviamente!) em cima de um disco ruim ou em péssimas condições. Veja se o feltro adere à superfície do disco. O disco deve grudar no aspirador. Mexa com movimento circular pra ver se o aspirador passa suavemente sem causar arranhões (não deveria visto que o feltro amortece a fricção do plástico com o vinil).

Agora você precisa fabricar a solução de limpeza.
Essa é a receita que eu pessoalmente uso, que muitos audiófilos do mundo inteiro recomendam e que na minha opinião proporciona resultados sensacionais. Você pode ser mais exigente e encomendar um produto comercial importado tipo Discwasher ou L'art Du Son no Ebay, procurar outras receitas na net ou também nada impede que você crie sua própria receita caseira, utilizando outros produtos. É muito legal experimentar novas soluções e chegar com uma ideia nova!
Misture água destilada com álcool isopropílico na proporção de 70/80% de água e 20/30% de álcool. Faça uma quantidade que seja suficiente a preencher um borrifador. Acrescente uma ou no máximo duas gotas de detergente neutro, (mas não mais que isso!) e chacoalhe. A função do detergente é apenas de quebrar a molécula da água para que ela possa penetrar mais facilmente nos sulcos.
Encha o outro borrifador de água destilada PURA que servirá para o enxágue.

LAVAGEM, ENXÁGUE E SUCÇÃO:
Coloque o disco em cima da superfície lisa com o lado A para cima. Cubra o selo com alguma coisa plástica e redonda para não molhá-lo. Borrife bastante solução de limpeza em cima do disco e com movimentos circulares passe o pincel em volta do disco. Não precisa fazer muita pressão, passe bem levemente. Pode passar nos dois sentidos, você vai ver que se formarão umas pequenas bolhas brancas no disco todo. Você está removendo a sujeira dos sulcos do vinil! Está na hora do enxágue.
Pegue o outro borrifador e enxágue o disco borrifando bastante água destilada. Cuidado com o selo!
Agora a parte melhor, a que faz toda a diferença: a sucção. Ligue o aspirador e segurando o disco pela borda com um pano de microfibras levante o disco e mantendo-o inclinado comece a aspirar rodando o disco com a mão esquerda. Você vai ver que o aspirador sugará o liquido da superfície do disco que ficará limpa e seca em poucos instantes. A medida que o aspirador for secando o disco você vai perceber que ele começa a exercer mais pressão em cima da superfície do vinil. É sinal que o liquido foi completamente aspirado. Duas voltas inteiras são suficientes para deixar o vinil perfeitamente seco. Se no fim do processo ao afastar o aspirador do disco aparecerem umas gotículas, você pode retirá-las absorvendo-as com o pano de microfibras.
Vire o disco e repita o processo para lado B.
Se ao término desse processo o selo estiver seco, parabéns!!! Caso não estiver, espere até ele secar e aí o disco está pronto para ser colocado em seu celofane ou ainda melhor para ser tocado! Em muitos casos porém os selos terão algum resíduo de água. Nenhum problema, deixe secar naturalmente ao ar, é questão de poucos minutos.
Pronto! Agora seus discos tocarão como nunca antes e suas audições serão mais prazerosas! mantenha sempre seus discos limpos. Lave até os discos novos! Sempre lembre-se de armazenar seus discos em posição vertical em um lugar areado e seco.
Espero seus comentários aqui!



Nota: Andei experimentando ainda mais e achei que usar abrilhantador secante para lava-louças (se encontra em qualquer supermercado, o da Sun ou Limpol custam R$ 6 a embalagem de 100ml)é melhor que o detergente comum para pratos, pois trata-se de um produto menos agressivo e que desenvolve o mesmo papel, sendo um tensioativo (ou seja, quebra a molécula da água e tem alto poder limpante). Bastam poucas gotas misturadas a solução de água destilada e álcool isopropílico. Podem experimentar também variando as proporções de álcool e água destilada, tentando diminuir a quantidade de álcool (acho que podemos chegar a 5-10% tendo ótimos resultados!)


domingo, 13 de janeiro de 2013

Filmes que você tem que evitar: TAKEN 2

Considerações gerais:
Primeiro: Liam Neeson é um bom ator.
Segundo: "Taken" de 2008 é um bom filme de entretenimento (mesmo com umas coisas forçadas).
Terceiro: Taken 2 é uma merda total.

O filme é simplesmente uma sequências de cenas absurdas e incoerentes, uma após a outra.
A trama é simples: as famílias dos albaneses que Bryan Mills (Liam Neeson) exterminou no primeiro filme por terem sequestrado a filha dele em Paris, se reúnem liderados por um velho que é pai de Marco, chefinho meia-boca brutalmente assassinado no episódio anterior. O objetivo é óbvio: vingar-se do Mills.
O filme começa com o nosso herói que, perfeito pai de família, vai visitar a filha Kim (Maggie Grace) que vive com a mãe, tem um namorado e não consegue tirar carta de motorista. E o que o perfeito pai faz? Se oferece para deixar a filha estacionar o próprio carro (coisa que ela consegue perfeitamente!)resolvendo o problema de falta de auto-estima dela. Vamos ficar de olho nessa menina!
Lenore, a mãe de Kim (a linda Famke Janssen), está em crise com o atual companheiro e não é mais a mulher azeda e rancorosa que costumava ser com Bryan, muito pelo contrário: quando o namorado milionário decide cancelar a viagem que haviam planejado, ela se joga nos braços do ex e topa curtir uns dias de "férias" com ele em Istambul. Mulher de fases?
E com uma cena memorável, na qual ela e Bryan decidem brindar juntos e os dois copos aparecem de uma hora pra outra magicamente cheios de vinho sem que eles tenham aberto a garrafa, começa a série de besteiras que vai até o fim desse filme.
Estávamos falando de férias, certo? Sim, porque o Bryan arrumou um "bico" em Istambul onde dá pra entender vagamente que ele foi contratado por dois ou três dias para proteger um sheik importante e de repente ex-mulher e filha aparecem (interessante como estes americanos conseguem passagens tão facilmente e em cima da hora!).
Bom, então eles estão curtindo o hotel super-chique em que estão alojados enquanto os albaneses estão preparando o plano pra sequestrar as mulheres queridas do Bryan. Tem que dizer que estes vilões são uns miseráveis mal vestidos, todos barbudos e sujos que moram em lugares sinistros, muquifos onde assistem a jogos de futebol em uma tv em preto e branco (quem no mundo no ano 2012 ainda tem tv em preto e branco? Não existe!!!) mas ao mesmo tempo tem a disposição picapes, bmws, conseguem vistos falsos e usam armas automáticas para realizar o plano deles. Meio estranho, não?
Eles atravessam uma hipotética fronteira que dividiria a Albânia da Turquia (os dois países não fazem divisa em nenhum mapa e muito menos no mundo real, mas não importa porque americano não é bom de geografia!) e chegam em Istambul.
Bom, eles penetram no hotel, onde tem outra cena memorável: uma camareira provida de walkie-talkie (onde já se viu?) avisa a segurança da presença dos bandidos que depois de uma luta com golpes em câmara lenta, muito brega, conseguem capturar Bryan e ex esposa.
Eles, em outra cena fantástica, encostam uma faca no pescoço da Lenore, não se vê a imagem mas se percebe o som de um corte violento. Cortaram a garganta dela? É o que qualquer pessoa lógica pensaria. O chefe dos albaneses a amarra a uma corrente de cabeça para baixo, porque assim ela sofreria mais e demoraria mais pra morrer. Na realidade nas cenas seguintes descobrimos que machucaram apenas o rosto dela (pouco mais que um arranhão!)
Logicamente Bryan fica puto e tem uma carta na manga, ou melhor, um mini celular escondido em uma bota. Mesmo amarrado consegue com o pé levar o aparelho até as mãos, ligar pra Kim, avisá-la que ele e a mamãe foram capturados e, instruir a filha como se fosse uma agente secreta profissional. Ela, sob instrução do pai, entende tudo na primeira (!)e desenha uns círculos no mapa, para poder localizá-lo. Os círculos são baseados nas recordações que ele tem de quando, sequestrado e jogado na picape foi transportado pro esconderijo dos criminosos. Sim, porque ele contou os segundos que o carro andou antes de virar, lembra do som de uma espécie de ukulele que um velho está tocando na rua, como se esse instrumento fosse uma inteira orquestra, mas o Bryan é tão foda que lembra até mesmo das mudanças nas marchas do câmbio do carro que o estava transportando!
Sim, ele é tão foda que instrui a filha a jogar granadas da janela do hotel e ela consegue quase acertar o lugar onde os inimigos estão! A menina provoca o caos com um par de granadas e desestabiliza os albaneses.
Assim ele consegue se livrar, cortando o "barbante" que o aprisionava e instrui a filha, que está correndo pelos telhados das casas(!), para jogar a arma dele através de um cano de onde ele fez sair fumaça. Claro que ele consegue fugir e junto com a filha, que agora dirige como um 007, conseguindo dar cavalinho de pau de ré e fugir pelas ruas da cidade a altíssima velocidade escapa da ameaça.
Vocês querem mais ou posso parar aqui?
Outro momento superlativo dessa bosta de filme acontece quando pai e filha irrompem de carro na embaixada americana e não recebem nem um tiro dos soldados e dos guardas (a motivação idiota é que "poderia ter uma bomba de terroristas no carro") porque Bryan atráves do celular consegue falar com um dos amigos dele que tem influência no governo e esse amigo em poucos segundos consegue tirar o deles da reta...
Bom, qualquer um pode facilmente imaginar o final. Os bons vencem, ninguém se machuca enquanto os maus morrem todos. Kim passa no exame da auto-escola e viveram felizes para sempre.
Sim, tomara que seja para sempre, porque tenho medo só de pensar em uma continuação dessa vergonha de filme.
Enfim, um filme horroroso, que qualquer pessoa com um mínimo de inteligência e amor a si mesma e ao cinema faria bem a evitar. Não considero nem como opção para entretenimento. Um verdadeiro insulto à inteligência.
Se tivesse pelo menos a auto-ironia de "Os mercenários 2" poderia até se salvar, caindo no ridículo, e pelo menos provocaria boas gargalhadas no espectador, mas infelizmente para ele e para quem o assiste, este filme comete o erro de se levar muito à sério e acaba se tornando uma porcaria colossal.
Fuja dele!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Como limpar os discos de vinil




Sobre limpeza de discos de vinil existem opiniões tão divergentes e tão pessoais que o assunto chega quase a ser um dogma religioso.
Alguns afirmam que jamais o disco de vinil deva ser lavado, outros acreditam que a limpeza deva ser feita apenas usando os produtos específicos para isso (quase sempre muito caros e difíceis de serem encontrados aqui no Brasil), ou as máquinas tipo Nitty Gritty ou VPI, outros acham que é suficiente passar um pano ou uma escova antiestática pouco antes de pôr a agulha no discos e ainda outros confiam nas "receitas caseiras", sempre em busca da solução ideal.
Em geral a melhor limpeza possível é feita por sucção, ou seja algo que aspire a sujeira do disco.
O método que vou ensinar é simples, manual e só fruto de muita pesquisa e experiência pessoal. Não tenho a pretensão de afirmar que seja o melhor método de limpeza do mundo e respeito qualquer outro sistema. Afinal, cada um faz o que bem entender com seus próprios vinis. Só posso dizer que, depois de anos, encontrei um método de limpeza ao alcance de praticamente todos e que produz bons resultados.
Então vamos imaginar a seguinte cena: você achou no sótão, num sebo ou ganhou de um amigo/parente,etc. alguns discos que ficaram só Deus sabe onde por muito tempo. Quando abre o celofane que os guarda (se ainda existe) se depara com a triste realidade: os discos estão cheios de pó, sujeira de todos os tipos, na pior das hipóteses mofo. O que fazer?
Depois de alguns anos de experimentação cheguei à conclusão que é bastante fácil remover a sujeira superficial, aquela visível. Para isso, uma simples lavagem com água e detergente neutro (tipo Ypê, Minuano, etc)pode ser suficiente. O problema é que existe um tipo de sujeira invisível nos microssulcos dos lps que é muito difícil de remover. Esta sujeira é a maior responsável pelos "plocs" que se ouvem quando a agulha trilha os sulcos e, impedindo uma correta leitura do sinal gravado nas paredes, acaba por abafar o som.
O meu método utiliza os seguintes produtos que podem ser encontrados facilmente:
- Vinagre claro (o vinagre tem alto poder de limpar e dissolver a gordura, tanto que é usado na limpeza de superfícies plásticas ou acrílicas). No lugar do vinagre, e ainda melhor, porém mais dificil de encontrar, pode ser usado alcool isopropílico, que se encontra nas lojas de eletrônicas e é usado pra limpar placas de computadores, partes eletrônicas, etc.
- Um borrifador
- Um pedaço de veludo sintético (se compra por metro em qualquer loja de tecidos). O veludo sintéticos tem fibras microscópicas que conseguem penetrar nos sulcos dos lps sem danificá-los.
- Detergente para louças de preferência neutro.
- Água destilada (preferir) ou se não tiver, pelo menos filtrada.

Faça uma solução de 50% vinagre branco ou alcool isopropílico e 50% água destilada (ou filtrada) e coloque em um borrifador. Adicione uma ou duas gotas de detergente neutro tipo Ypê. Poucas gotas mesmo, é o suficiente para "quebrar" a molécula da água pra permitir que essa solução entre nos sulcos.
Apoie o disco a ser lavado em cima de uma superfície lisa e não abrasiva (eu uso plástico bolha ou nylon), borrife bem o lp fazendo atenção a não molhar o selo (o vinagre poderia estragá-lo), passe o pano de veludo sintético com movimentos circulares em cima do disco, seguindo a direção dos sulcos (eu faço em sentido horário)até ter atingido toda a superfície do mesmo. Não precisa fazer muita pressão. Enxágue debaixo da torneira com bastante água fria (pode molhar o selo que não tem problema, o simples jato de água não estraga o selo). Repita a operação para o outro lado do lp. Normalmente depois de enxaguar o lado B eu enxaguo de novo o lado A também, visto que ele ficou em cima do plástico que pode conter resíduos da sujeira que acabou de ser removida. Enxágue o pano de veludo e remova o excesso de água para cada disco que for limpar.
Depois de enxaguar os dois lados deixe secar naturalmente ao ar. Não tente secar com algum pano que poderia empoeirar ou sujar os discos de novo.
Eu coloco os discos no escorredor de pratos, como na foto. Leva mais ou menos uma hora para os discos secarem completamente.
Experimente! Garanto que com este sistema aqueles discos imundos que você resgatou perderão a maior parte dos "clicks" e "plocs" que incomodam a audição, o som ficará mais nítido e sua audição mais prazerosa.
Para resultados ainda melhores, comparáveis aos obtidos com as máquinas profissionais, não deixe de ler meu outro artigo sobre limpeza profunda com sucção aqui, neste mesmo blog, sob o título "O pulo do gato na limpeza dos discos de vinil"
E não deixe de comentar os resultados!

domingo, 14 de agosto de 2011

Sony MDR-XB300 review




Este Sony MDR-XB300 é um fone "over the ear", um daqueles que cobrem completamente o ouvido. Ao peso cerca de 120 gramas, ele é bem confortável com os pads bem macios e altos. Enquanto o fio de "tipo Y" , ou seja que sai de cada pad, é objetivamente curto (1,2m), tem uma caracteristica muito interessante e que garante boa durabilidade: de fato ele é achatado, tornando praticamente impossível aquela que talvez seja a principal causa de estrago de um fone, ou seja o enroscamento do próprio fio com conseguinte perda de contato. Ótimo portanto para quem o utilizar com pcs ou dispositivos portáteis como I-pods, mp3 players ou celulares.
Quem quiser conectar este fone a tv, home theater ou som e acomodar-se confortavelmente no sofá vai precisar comprar uma extensão visto que o cabo só mede 1,2m(nada de proibitivo).
No papel esse fone promete muito: a resposta em frequência declarada pela Sony é 5-22.000 hz, o próprio XB no código do produto significa "Extra Bass", garantindo uma boa reprodução das baixas frequências. Isso graças aos poderosos drivers de 30 mm que quando em ação oferecem um elevado nível de isolamento acústico. Em prática, se você ouvir música em um discreto volume, quem estiver ao seu lado não será incomodado pelo som e também você não perceberá as conversações e os outros barulhos ao seu redor.
Mas vamos testar este fone com vários tipos de música.
Teste realizado com o fone diretamente plugado na saída do pc.
O MDR-XB300 não é o tipo de fone que possa ser considerado "neutro" ou "transparente", visto que enfatiza os graves, fato que por outro lado assegura que o som reproduzido esteja sempre fundamentado em bons alicerces.
Com o jazz, por exemplo "Love for sale" na versão de Cheryl Bentyne é agradabilíssima: o orgão que entra ao uníssono com o contrabaixo logo após as baquetas no chimbal, tem força e profundidade. A linda voz da cantora bem definida, assim como o saxofone. Com certeza esse é um fone que brilha com pequenos combos. Só pra confirmar minha impressão coloco Ray Brown, Monty Alexander e Sam Most em "Blue Monk": aqui os graves estão na minha opinião dominando. O som me parece um pouco "embolado" pelo excesso de graves. De fato, depois de um pequeno ajuste no equalizador, o piano aparece mais brilhante, os graves ainda sustentam e dão vitalidade à musica mas sem sobrepor-se. A flauta emerge bem na mixagem.
O Trio da paz em "Manhã de Carnaval", muito intimamente nos devolve intacto o feeling da bossa nova: o violão bem definido,nunca metálico, as vassourinhas marcando o tempo, o contrabaixo pleno mas não retumbante, a voz etérea. Amei!
Tempo de mudar de estilo: eis aqui os bons e velhos Stones em "Gimme Shelter". A textura das guitarras è boa, a voz do Mick e da Lisa aparecem um pouco distantes, a rítmica ok, mas é preciso lembrar que essa gravação não è das melhores e talvez fosse esse o efeito desejado pelos próprios músicos. Reprodução honesta de qualquer forma.
Vamos passar a uns descendentes dos Stones: "Remedy" dos Black Crowes é simplesmente devastante! Dá vontade de pegar um baixo e sair tocando!!!
Grandes os Blues Brothers em "Gimme some lovin'". Guitarra, baixo, bateria e sopros se amalgam de uma forma perfeita. Aqui também as vozes me parecem um tantinho atrás. Mas talvez seja minha impressão. Me divirto muito ouvindo essa faixa!
"Still of the night" do Whitesnake testemunha mais uma vez que o MDR-XB300 dá realmente um "live" feeling, como se estívessemos ouvindo os músicos tocando ao vivo. A música tem energia, nunca perde força. No começo da parte falada a voz do Coverdale não é muito inteligível, os graves descem sem piedade lá em baixo, embolando um pouco as coisas. Onde outro fone, digamos o Grado SR-60 devolveria a música bem mais polida, o Sony se comporta de forma visceral, com muita energia mas um pouco de dificuldade na separação dos instrumentos.
De qualquer forma... é só rock n' roll, e (graças a Deus!) nós gostamos.
Quero ver como este fone se comporta em um contexto mais "sério". Vittorio Grigolo, tenor italiano da nova geração em "Uma furtiva lacrima", também necessita de um pouco de correção para moderar os graves que de outra forma soariam invadentes demais. A voz è bem reproduzida em todas suas nuances, tem calor e profundidade. Dificil avaliar os instrumentos que nessa ária se limitam a prover um acompanhamento mais que discreto. Coloco então "Che gelida manina" e os arcos me parecem bem dimensionados, os sopros em equilíbrio. A voz do tenor sobe até os agudos sem grandes problemas. Gostei. Preciso avaliar as vozes femininas - penso - e assim chega a vez de Angela Gheorghiu. "O mio babbino caro" ao vivo me parece correta e equilibrada.
Agora algo diferente: The Ondekoza - Legend é um album que sonicamente daria problemas a qualquer caixa acústica ou fone de ouvido, tamanhas as baixas frequências destes tambores japoneses. O som que escuto através deste fone é forte, profundo e definido na faixa "Odaiko", onde uma flauta se livra etérea no ar, quase afugentada pela percussão do tambor. O som é reproduzido com uma realidade impressionante. Muito sugestivo, sem sombra de dúvida.
Hora de testar os graves de verdade com "Angel" do Massive Attack. Essa faixa tem uns sub-graves daqueles que fazem as paredes tremer(algo em torno de 20 hz!). Mais uma vez o som que chega ao meu ouvido confirma a excelência com que este fone reproduz as baixas frequências, com potência e precisão, sem esquecer do resto do espectro sonoro que tambèm se integra perfeitamente.
"The expert" dos suiços Yello é outro exemplo de música eletrônica com alto conteúdo de graves, vozes profundas, teclados e samples gravados maravilhosamente. Aqui também o resultado è excepcional. É claro que se trata de um fone que se dá muito bem com música eletrônica, hip-hop r'n'b e dance.
Continuo o test com um pouco de música erudita. O "Allegro moderato" da Arpeggione Sonata de Rostropovich e Britten é muito agradável atráves desse fone, talvez um pouco "escuro", faltando um pouco de brilho no piano.
O início da Sinfonia n.5 de Beethoven (Carlos Kleiber) é reproduzido com toda sua carga emocional (o destino que bate na porta). A massa orquestral é bem compacta, falta porém na minha opinião um pouco mais de presênça nos agudos (mas pode ser uma caracteristica da gravação da DG realizada entre 1974-76).
Conclusões:
O MDR-XB300 é um fone que excele onde tiver graves marcantes, não importa o tipo de música, garantindo um "punch" e energia incríveis. Blues, rock, pop, jazz, dance e quanto mais tocam com qualidade através deste fone da Sony. Ao contrário, onde os graves são mais sutis e onde a textura musical é mais complexa, as baixas frequências podem ter a tendência a sobrepor-se um pouco ao resto. Não se trata de um fone dos mais analíticos, portanto talvez não muito apropriado para mixagens em estúdio, por outro lado para quem busca o prazer de ouvir música com boa qualidade e conforto em casa ou em qualquer lugar é altamente recomendado.
Ótimo custo-benefício para quem comprar este fone na Europa ou nos EUA (me custou 35 euros na Fnac da Itália), um pouco menos aqui no Brasil, onde pode ser encontrado ainda por um preço acessível (por volta dos 200 reais), com absurdos (um erro com certeza) como no site Americanas onde o MDR-XB300 é vendido por R$ 9.999!!!