Considerado por muitos críticos como o ponto mais alto da carreira de Steve Grossman, o disco registra o saxofonista em plena maturidade artística. Gravado em Nova York em fevereiro de 1993 e lançado no ano seguinte pelo selo francês Dreyfus Jazz, o álbum é uma declaração de amor ao hard bop tradicional, em uma época em que o jazz seguia diversos caminhos. Grossman escolheu outro rumo: o da autenticidade.
Seu sax tenor é simplesmente impressionante. É impossível não perceber ecos de John Coltrane na intensidade e na profundidade harmônica, assim como a influência de Sonny Rollins na construção melódica e no senso de swing. Mas o mais interessante é que, em nenhum momento, Grossman soa como um imitador. Sua personalidade transborda em cada frase, com um timbre robusto, um fraseado extremamente fluido e uma energia que nunca sacrifica a beleza da melodia.
O repertório foi escolhido com enorme inteligência. A faixa-título, "Time to Smile", composição do pianista Freddie Redd, abre espaço para um dos momentos mais elegantes do disco. Grossman transforma a melodia em um longo discurso musical, alternando delicadeza e explosões de energia com absoluta naturalidade.
As composições próprias também impressionam. "415 Central Park West" e "Extemporaneous" revelam um músico que, além de grande improvisador, possuía uma voz muito particular como compositor. São temas sofisticados, mas acessíveis, que servem de plataforma perfeita para o talento de todo o grupo.
Entre os standards, Grossman oferece interpretações extremamente sensíveis de "I'm Confessin' (That I Love You)" e "Till There Was You". Em vez de reinventar essas canções, ele prefere explorá-las com respeito e enorme carga emocional, mostrando que maturidade também significa saber quando não exagerar.
O encerramento com "E.J.'s Blues", composição do lendário Elvin Jones, é simplesmente eletrizante. O quinteto parece tocar sem qualquer esforço, impulsionado por uma energia contagiante que resume perfeitamente o espírito do álbum. E que banda extraordinária.
No piano, Willy Pickens demonstra elegância e versatilidade, construindo bases sólidas e solos sempre inspirados. Tom Harrell participa de metade das faixas e acrescenta seu lirismo característico, dialogando com Grossman em momentos de rara beleza. Na seção rítmica, Cecil McBee oferece um contrabaixo firme e profundamente musical, enquanto Elvin Jones prova, mais uma vez, por que é considerado um dos maiores bateristas da história do jazz. Seu toque é vulcânico, cheio de nuances, capaz de incendiar a música sem jamais perder o controle.
A gravação também merece elogios. O som é limpo, natural e extremamente equilibrado. Cada instrumento ocupa seu espaço, permitindo apreciar tanto a força do tenor de Grossman quanto as sutilezas do restante do quinteto.
Time to Smile talvez nunca tenha alcançado a popularidade de alguns clássicos da Blue Note dos anos 60, mas isso pouco importa. Trata-se de um álbum atemporal, que demonstra como o hard bop ainda tinha muito a dizer nos anos 90. É um disco de músicos maduros, tocando sem vaidade, apenas colocando toda a sua experiência a serviço da música.
Para quem aprecia jazz acústico, intenso, elegante e profundamente humano, Time to Smile não é apenas uma excelente recomendação: é uma obra-prima escondida que merece ser descoberta e revisitada inúmeras vezes.


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