A resenha de hoje é sobre um dos meus álbuns favoritos dos anos '90 e um dos cds mais recorrentes nas minhas audições. Estou me referindo a "A Look Within" de Javon Jackson.
Para quem não tiver familiaridade com este nome, Javon Jackson é um sax tenor que surgiu numa época em que o jazz buscava novas direções. Apesar disso, ele sempre manteve um pé firme na tradição do hard bop, sem jamais soar datado.
Seu principal cartão de visita foi integrar os Jazz Messengers de Art Blakey entre 1987 e 1991. Poucos músicos passaram por essa "universidade do jazz" sem sair transformados, e Jackson absorveu muito daquela filosofia: som robusto, swing intenso e enorme respeito pela melodia.
Seu fraseado revela claramente a influência de Joe Henderson, algo que ele nunca escondeu, mas Javon acrescenta um lirismo próprio e um toque mais direto, menos abstrato. É um daqueles saxofonistas que agradam tanto aos puristas quanto aos ouvintes que procuram um jazz moderno sem excessos experimentais.
Foi nesse contexto que surgiu "A Look Within", lançado pela Blue Note em 1996.
Nesse álbum, Jackson se afasta da imagem de "continuador do hard bop". Em vez de montar um repertório composto apenas por standards ou blues, ele escolheu músicas de universos muito diferentes e conseguiu unificá-las através da própria linguagem. É de se admirar sua coragem de ampliar o repertório, evitando ser visto apenas como um revivalista.
O álbum passeia por compositores tão distintos quanto: Egberto Gismonti, Frank Zappa, Muddy Waters, Freddie Hubbard, Charles Mingus, Serge Gainsbourg, Duke Ellington e Hank Mobley. É um repertório que poderia facilmente soar desconexo nas mãos de outro músico, mas Jackson consegue dar unidade a tudo.
A escolha da guitarra de Fareed Haque, em vez do tradicional piano durante boa parte do álbum, cria um espaço sonoro muito aberto. Isso permite que o tenor respire e que cada frase de Jackson tenha ainda mais impacto.
Entre as faixas, algumas merecem atenção especial.
"Assessment (For Elvin Jones)" é uma homenagem ao lendário baterista de Coltrane, com o qual Javon gravou um álbum pela holandesa Timeless em 1992. O tema já mostra toda a intensidade do sax de Jackson e sua capacidade de construir longos discursos melódicos.
"Memória e Fado" de Egberto Gismonti é uma música profundamente melancólica, mas sem cair no sentimentalismo. Ela transmite uma sensação de contemplação, quase de nostalgia serena. Em vez de tentar reproduzir o universo sonoro de Gismonti, o saxofonista transforma a composição em um veículo para o jazz acústico. O tema permanece reconhecível, mas ganha uma pulsação diferente. O tenor de Jackson canta a melodia com enorme respeito, sem exageros, enquanto a guitarra de Fareed Haque colore a harmonia de maneira muito delicada.
"Zoot Allures", de Frank Zappa, é uma surpresa deliciosa. Poucos saxofonistas de hard bop escolheriam Zappa para um disco da Blue Note, mas a releitura funciona incrivelmente bem.
"Country Girl" traz a participação de Cassandra Wilson e estabelece uma ponte entre blues e jazz moderno com enorme naturalidade.
E, para quem gosta de Hank Mobley (como eu), "Recado Bossa Nova" fecha o álbum de forma brilhante. Jackson não tenta reinventar o clássico; ele preserva o balanço original e acrescenta seu tenor encorpado e cheio de personalidade.
O que mais me agrada em "A Look Within" é justamente o equilíbrio. Jackson demonstra um profundo respeito pela tradição, mas evita a armadilha da nostalgia. O disco soa elegante, moderno e extremamente musical. Não há demonstrações gratuitas de virtuosismo; tudo está a serviço da melodia.
É um daqueles álbuns que crescem a cada audição e que mostram por que Javon Jackson é frequentemente citado como um dos mais sólidos tenoristas de sua geração.

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