Ramón Santamaria Rodriguez, mais conhecido como Mongo Santamaria, foi um percussionista e compositor cubano. Se você é fã de jazz, provavelmente já ouviu "Afro Blue", composição dele gravada por John Coltrane, Abbey Lincoln e dezenas de outros músicos.
Quando se fala sobre "Latin Jazz", o nome de Mongo Santamaria é um dos mais mencionados, e com razão. Ele teve grande sucesso comercial em 1963 com uma versão de "Watermelon Man" de Herbie Hancock, que escalou as paradas de pop e R&B dos Estados Unidos. Entre os inúmeros registros de sua arte há um álbum que na minha opinião nunca recebeu a atenção que merece e que eu acho extraordinário. "Sofrito", gravado em 1976, foi considerado na época mais um álbum "comercial" da fase dos anos '70 do percussionista cubano, mas é hoje um verdadeiro clássico do latin jazz com influências de jazz-funk e fusion.
Vou começar pela capa, que já conta uma história. Vemos aqui uma grande panela de "sofrito", a mistura de cebola, alho, pimentão, tomate, ervas e outros ingredientes que é a base da cozinha caribenha. É uma clara metáfora para o próprio álbum, que reúne ritmos afro-cubanos, jazz, funk, soul, música brasileira e arranjos sofisticados, tudo "cozinhado" em uma única linguagem.
Mas existe outro contexto interessante a ser levado em consideração. Mongo Santamaria cresceu cercado pela rumba, pelos cantos iorubás e pela tradição religiosa da Santeria, que preserva elementos espirituais originários da África. Essa herança é evidente em "O Mi Shangô". A faixa começa com tambores batá, usados em cerimônias religiosas e traz cantos em iorubá com uma base elétrica moderna. É um exemplo de como tradição e modernidade podem conviver.
A inicial "Iberia" sugere uma longa viagem cultural entre África, Espanha e Brasil. Os arranjos deixam bastante espaço para a respiração da música. Os metais entram com elegância e o Fender Rhodes colore o fundo, sempre sustentado pelo pulso constante da percussão.
"Cruzan" é uma faixa muito sofisticada ritmicamente, onde a música avança naturalmente, como se estivesse conduzida por uma corrente com o sax baritono de Roger Rosenberg dialogando primeiro com o Rhodes e depois com os teclados em um clima quase cinematográfico.
A faixa-título, "Sofrito", é extraordinária. Começa de forma quase contemplativa e vai crescendo até criar uma tensão rítmica enorme. Os sopros entram com muito bom gosto e a percussão de Mongo nunca soa exibicionista; ela impulsiona a música inteira. Os ritmos cubanos vivem no piano, na flauta e no trompete e na voz que repete "sofrito".
Essas são apenas algumas faixas, mas o que mais me impressiona no álbum todo é o equilíbrio. Temos percussão afro-cubana autêntica, arranjos de metais muito sofisticados, Fender Rhodes e sintetizadores típicos dos anos '70 e grooves jazz-funk, sem nunca perder a identidade latina. Um álbum que é um convite para degustar culturas e sabores diferentes em uma mistura irresistível de temperos que vai conquistando o ouvinte cada vez mais a cada nova audição. Difícil de esquecer.


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