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quinta-feira, 27 de julho de 2017

The thin red line (Além da linha vermelha) Resenha


Desde as primeiras cenas a narrativa do filme me lembrou muito do "The tree of life", com a voz fora de campo fazendo perguntas retóricas sobre a vida, a morte e tudo que há no meio. De fato, sem que eu soubesse, Terrence Malick é o diretor de ambos os filmes.
Detestei "The tree of life", de 2011. Achei muito pretensioso e sem rumo, embora a fotografia dele seja fenomenal mesmo, beirando níveis de referência absoluta como "Baraka" (só para dar um exemplo).
Mas gostei muito de "The thin red line".
Em 2 horas e 45 minutos este filme de 1998 desenvolve o drama da guerra através da voz dos protagonistas: um grupo de soldados americanos empenhados na sangrenta batalha de Guadalcanal na segunda guerra mundial.
O filme consegue, até melhor que "Saving private Ryan", capturar o desespero, a loucura, a angustia, a dor, e todos os outros sentimentos, quer ditos quer tácitos, dos envolvidos no conflito. Nas entrelinhas "The thin red line" fala mais alto que "Saving private Ryan", que continua sendo meu filme de referência no quesito "filmes de guerra".
É um páreo duro: a fotografia, a qualidade de imagem e as cenas de ação são incríveis em ambos os filmes, com uma levíssima vantagem para "Private Ryan" (a cena da batalha na praia da Normandia continua inalcançada até hoje).
Por outro lado, "The thin red line" oferece mais pontos para reflexão, com personagens mais marcantes, entre os quais Sean Penn, Jim Caviezel, John Cusack, Nick Nolte, Adrien Brody.
Se não houvesse a voz fora de campo com suas perguntas retóricas ("por que nos tornamos assim?", "quem nos separou?", "de onde vem o mal?",etc.) e o lance de "after life", que francamente achei em excesso e pelo visto é característica marcante do diretor, arriscaria colocá-lo no topo. Infelizmente precisa contentar-se com o segundo lugar, junto com "Hacksaw Ridge".
Mesmo assim o filme contém uma poderosa mensagem sobre a inutilidade e os horrores da guerra. Um retrato fiel da alma humana, com suas virtudes e sua podridão.
Vale muuuito a pena assistir!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Coisas para se fazer em Denver quando você está morto"

"Coisas para se fazer em Denver quando você está morto" não obteve muito sucesso na época de seu lançamento em 1995, cúmplice um pouco a "febre" por Tarantino, que com "Pulp fiction" em 1994 havia revolucionado o modo de fazer cinema, e que praticamente monopolizava o interesse de público e crítica naqueles anos.
Contudo, esse filme de Gary Fleder ("Refém do silêncio", "O Juri"), que passou despercebido, merece ser assistido e avaliado positivamente por vários motivos.
Primeiro pela trama.
Jimmy "o Santo" é um empresário interpretado magnificamente por Andy Garcia, talvez no melhor papel da carreira, junto com o de "Internal affairs" ("Justiça cega"), onde divide a tela com Richard Gere.
Os negócios (bastante peculiares) não estão indo bem para Jimmy, embora ele disfarce exibindo um corte de cabelo impecável, esbanje sorrisos e otimismo irresistíveis no rosto e use ternos elegantes. Contudo ele mantém em vida o sonho de poder, um dia, comprar uma lancha e mudar-se para longe de Denver.
Embora hoje ele tente sobreviver honestamente, guarda na gaveta um passado como gangster de todo respeito (o apelido "Santo" vem dele ter frequentado o seminário quando jovem, até perder a vocação e entrar no mundo do crime).
Para salvar sua empresa, endividada até o pescoço, ele se vê obrigado a aceitar executar um "trabalho", na verdade uma "coisinha simples", para o chefão do crime local. Poderia agir sozinho, mas prefere convocar os companheiros dos velhos tempos, que também financeiramente não navegam em boas águas. No meio da operação um imprevisto acontece, a situação precipita e Jimmy, terá que repensar na sua vida e correr atrás do prejuízo. Sentindo-se responsável, tentará salvar o que for possível e consertar os erros cometidos.
O elenco inclui, além da grande atuação de Andy Garcia, que literalmente dá vida a um personagem melancólico, mas ao mesmo tempo provido de bom coração e cheio de alegria (e é impossível não gostar dele!), um notável Christopher Warden, que interpreta o chefão mafioso paraplégico, o tempo todo em uma cadeira de rodas. Um personagem azedo e cínico, amargurado pela vida, que parece ter sido muito má com ele: além da enfermidade, teve que passar pelo falecimento da esposa amada e hoje, o único laço familiar que sobrou-lhe, é o do filho, um garotão seriamente retardado, que vive arrumando-lhe problemas. Da sua mansão,onde vive constantemente assistido por uma enfermeira supersexy e cercado pelos seus capangas, ele controla seus negócios criminosos.
Gabrielle Anwar (a atriz que dança o tango na famosíssima cena com Al Pacino em "Perfume de mulher") esbanja juventude e sensualidade ao interpretar Dagney, a linda jovem que conquista o coração de Jimmy. A química entre Gabrielle e Andy é muito boa, o casal protagoniza algumas cenas memoráveis.
Todos os personagens são bem construídos, ao ponto de alguns parecerem personagens de quadrinhos, com características peculiares mas não estereotipados. O diretor desenvolve com grande habilidade o psicológico deles.
"Critical" Bill (Treat Williams), um dos parceiros de Jimmy, é um brutamonte violento e asqueroso com sérios distúrbios mentais que treina boxe batendo em cadáveres; Olden (Christopher Lloyd, o "Doc" de "De volta ao futuro", o mais idoso da turma, ganha a vida projetando filmes em um cinema pornô; Lucinda (Fairuza Balk) é uma jovem prostituta que sonha em um dia ter um filho com Jimmy e vive pedindo dinheiro emprestado; Steve Buscemi é perfeito como killer silencioso e frio, a morte personificada, uma figura dificilmente esquecível, mesmo tendo importância marginal no contexto da história.
É muito interessante assistir à luta que os personagens terão que travar para arcarem com as consequências das próprias ações e que os levará para os próprios destinos.
Outro elemento de destaque deste filme é a linguagem muito peculiar, repleta de gírias e expressões quase incompreensíveis e de difícil tradução ("boat drinks", "mammy-rammer", "give it a name", "buckwheats"), os diálogos afiados e crus que tornam a história mais real e às vezes puramente trash. Algumas falas são inesquecíveis ("Eu sou Godzilla, você é o Japão!")
Mas atenção: não se trata apenas de mais um filme de gangsters ou de pura ação. Nas cenas e no desenvolver dos eventos é recorrente o tema da fragilidade da vida, da frustração da mortalidade e a angustia da iminência da morte, o que leva a refletir sobre nossas ações, sobre nossa existência, não apenas na dimensão presente dos fatos cotidianos mas também em perspectiva futura, visando o tempo em que não mais estaremos aqui.
Com muito bom gosto Fleder insere na trilha sonora algumas pérolas de Tom Waits, Johnny Cash, Morphine e Buddy Guy, que muito oportunamente ajudam a descrever algumas cenas de forma mais viva e dinâmica.
Sem mencionar a cena final, tão linda que chega a dar um aperto no peito.