quarta-feira, 15 de julho de 2026

CHET BAKER - CHET (1959)

"Chet" é uma verdadeira obra prima do cool jazz e da sensibilidade musical. O álbum, gravado pelo trompetista norteamericano em 1959, entrega um clima de intimidade e introspecção. O que torna esse álbum especial é o fato que não é apenas um disco de um solista, mas uma conversa sussurrada entre gigantes.

O sax baritono de Pepper Adams, embora naturalmente robusto e pesado, é tocado com delicadeza, casando perfeitamente com o sopro aveludado e sem vibrato do trompete do Chet. O piano de Bill Evans é uma aula de economia e bom gosto. Ele não atropela nenhuma nota, criando os espaços e as harmonias ideais para o Chet flutuar.

A guitarra sutil de Kenny Burrell e o pulso firme e preciso do Paul Chambers no contrabaixo dão aquela sensação de veludo que envelopa o disco inteiro. Faixas como "Alone Together" e "It Never Entered My Mind" são de arrepiar. A faixa 2, "How High the Moon", é um verdadeiro oásis de swing leve dentro de um disco majoritariamente dominado por baladas lentas e melancólicas. A guitarra de Kenny Burrell abre o caminho com acordes muito limpos e balançados. O solo de Bill Evans aqui é incrivelmente melódico e rítmico. Ele responde ao trompete lírico do Chet com frases que parecem flutuar sobre a condução precisa da bateria de Philly Joe Jones. É uma interpretação que foca no frescor e na beleza da melodia, sem a agressividade do bebop tradicional.

Tanto Chet Baker como Bill Evans estavam profundamente mergulhados no vício da heroína durante essas sessões (gravadas entre dezembro de 1958 e janeiro de 1959). Naquela virada de ano, o vício de Chet já controlava a sua vida. Ele andava pelos estúdios de Nova York devendo dinheiro para traficantes e, muitas vezes, debilitado fisicamente. O produtor Orrin Keepnews relatou mais tarde que trabalhar com Chet nessa época era tenso, pois ele podia simplesmente não aparecer ou sumir no meio das gravações. No entanto, quando colocava o trompete na boca, a genialidade dele de alguma forma se sobressaía ao caos pessoal.

Bill Evans foi introduzido à heroína justamente no final dos anos 50. O mais irônico e trágico dessa história é que quem apresentou a droga a Bill Evans foi ninguém menos que Philly Joe Jones — o baterista que toca com eles neste exato álbum. Evans tinha profunda admiração por Philly Joe, o que facilitou o terrível primeiro contato. A atmosfera no estúdio era fria. Bill Evans era um músico obsessivo, extremamente cerebral, focado na teoria musical complexa e muito reservado. Já Chet Baker tocava puramente por ouvido, instinto e intuição, quase sem ler partituras, guiado pelo puro lirismo.

Evans, além de sofrer com os seus próprios demônios e crises de abstinência, achava o desleixo e a falta de disciplina profissional de Chet irritantes. Por causa disso, embora a química musical entre eles tenha gerado essa obra-prima, eles mal se falavam nos bastidores. O clima era de puro profissionalismo silencioso sustentado por gigantes que se respeitavam musicalmente, mas que estavam destruindo as próprias vidas fora dali.

Mesmo com toda essa bagagem pesada e sombria por trás das cortinas, a música que sai das caixas de som é de uma paz e beleza celestiais. É o mistério do jazz: transformar a dor e o caos em pura poesia sonora. Álbum imperdível.