quinta-feira, 16 de julho de 2026

DONALD BYRD - SLOW DRAG

O trompetista Donald Byrd ocupa um lugar de destaque entre os representantes do "Blue Note sound" dos anos '60, tendo gravado mais de 30 álbuns em seu nome, sem contar as inúmeras participações como sideman. Este disco representa um dos últimos suspiros do hard bop purista do músico, antes dele mergulhar de cabeça no jazz-funk e na fusão comercial dos anos 70.

Desde os primeiros segundos da faixa-título, Donald Byrd deixa claro qual é o objetivo aqui: construir um groove irresistível, daqueles que fazem o corpo balançar quase involuntariamente.

A abertura é simplesmente fantástica. Com quase dez minutos de duração, "Slow Drag" é uma celebração do swing em andamento relaxado, mas cheio de personalidade. A música avança sem pressa, permitindo que cada músico encontre espaço para desenvolver suas ideias. E, no meio dessa atmosfera descontraída, surge um detalhe que torna a gravação inesquecível: Billy Higgins.

O lendário baterista não se limita a marcar o ritmo. Em diversos momentos, ele faz comentários espontâneos, brinca, solta expressões como o famoso "your mama" e transforma a sessão em algo que parece uma reunião entre amigos. É um daqueles raros casos em que a descontração do estúdio foi preservada na gravação, acrescentando uma dose enorme de humanidade ao álbum.

Donald Byrd atravessava uma fase extremamente inspirada. Seu trompete combina elegância, precisão e um lirismo que nunca soa exagerado. Cada solo é construído com inteligência, valorizando a melodia tanto quanto a técnica. Byrd não sente necessidade de impressionar pelo excesso de notas; ele conquista o ouvinte pela beleza das frases e pelo domínio absoluto do tempo.

Ao seu lado está um quinteto de primeira linha. Sonny Red oferece um contraponto perfeito com seu saxofone alto de timbre levemente ácido e muito expressivo, enquanto Cedar Walton demonstra por que sempre foi um dos pianistas mais refinados do hard bop. Seu toque é sofisticado, econômico e cheio de bom gosto.

Na cozinha, Walter Booker e Billy Higgins formam uma seção rítmica impecável. Booker sustenta o groove com um contrabaixo firme e pulsante, enquanto Higgins entrega uma bateria repleta de balanço, criatividade e pequenas sutilezas que passam despercebidas numa primeira audição, mas fazem toda a diferença.

O repertório também merece destaque. As releituras de "Secret Love" e "My Ideal" revelam um Donald Byrd extremamente sensível, capaz de transformar standards conhecidos em interpretações elegantes e pessoais. Já "Book's Bossa", composta por Walter Booker e Cedar Walton, presta uma deliciosa homenagem à bossa nova sem perder a identidade do hard bop americano. E "Jelly Roll", de Sonny Red, acrescenta uma dose extra de energia ao álbum com um tema vigoroso e cheio de personalidade.

Gravado nos lendários estúdios de Rudy Van Gelder, Slow Drag apresenta a assinatura sonora clássica da Blue Note: instrumentos perfeitamente equilibrados, excelente definição e uma sensação de proximidade que coloca o ouvinte praticamente dentro da sala de gravação.

Talvez Slow Drag não seja o álbum mais famoso da vasta discografia de Donald Byrd, mas é certamente um dos mais prazerosos. É um disco que privilegia o groove, a interação entre os músicos e a alegria de tocar jazz sem qualquer afetação. O álbum exala um clima incrivelmente descontraído, recheado de soul e blues.

Mais de cinquenta anos depois, continua soando incrivelmente fresco. Poucos álbuns conseguem transmitir tão bem a sensação de cinco grandes músicos simplesmente se divertindo enquanto fazem arte, ao ponto que, os quase 39 minutos da gravação parecem voar e deixam com aquela vontade de "quero mais".

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