segunda-feira, 20 de julho de 2026

Donald Byrd - ROYAL FLUSH (1961)

Em setembro de 1961, quando Donald Byrd entrou nos estúdios de Rudy Van Gelder para gravar Royal Flush, o mundo vivia um momento de enormes transformações. Um mês antes havia sido erguido o Muro de Berlim, símbolo máximo da Guerra Fria. John F. Kennedy ainda completava seu primeiro ano na presidência dos Estados Unidos, enquanto a corrida espacial ganhava força após Yuri Gagarin se tornar o primeiro homem a viajar ao espaço. Era uma época em que o futuro parecia promissor, mas também profundamente incerto.

No jazz, a efervescência era igualmente impressionante. Hard bop, jazz modal e as primeiras experiências do free jazz conviviam lado a lado. Era um período em que praticamente toda semana surgia um novo clássico. E foi exatamente nesse cenário que Donald Byrd gravou um dos álbuns mais elegantes e subestimados de sua carreira.

A primeira surpresa está na formação. Em vez de um sax tenor, Byrd escolheu o grande Pepper Adams no sax barítono, criando uma combinação sonora incomum e extremamente rica. O contraste entre o trompete luminoso e preciso de Byrd e o timbre encorpado de Adams dá ao álbum uma personalidade muito própria.

Mas há outro detalhe que torna essa sessão histórica: ao piano está um jovem de apenas 21 anos chamado Herbie Hancock. Ainda faltavam alguns meses para o lançamento de Takin' Off e muito antes de ele revolucionar o quinteto de Miles Davis, Hancock já demonstrava aqui uma maturidade impressionante. Seus acordes sofisticados, seu senso de espaço e sua elegância nos solos fazem parecer que já era um veterano.

A cozinha formada por Butch Warren e Billy Higgins é simplesmente impecável. Higgins, em especial, toca com aquele swing irresistível que faz tudo parecer fácil. Não há um único momento em que a música soe forçada; ela simplesmente flui.

O repertório mantém um equilíbrio perfeito entre energia e lirismo. "Hush" abre o álbum com um hard bop vibrante e sofisticado, enquanto "Jorgie's" oferece um dos melhores momentos da sessão, recheado de excelentes improvisos. A belíssima "I'm a Fool to Want You" revela um Donald Byrd extremamente sensível, mostrando que seu trompete podia ser delicado sem perder personalidade.

O encerramento merece uma atenção especial. "Requiem", composta pelo jovem Herbie Hancock, já aponta para o compositor brilhante que ele se tornaria poucos anos depois. É difícil acreditar que aquela peça tenha sido escrita por alguém no início da carreira.

Como praticamente todos os grandes discos da Blue Note desse período, Royal Flush foi gravado por Rudy Van Gelder. O resultado é uma gravação quente, natural e extremamente equilibrada, na qual cada instrumento encontra seu espaço sem jamais perder a sensação de conjunto.

Royal Flush talvez não tenha a fama de obras-primas como Free Form ou A New Perspective, mas é um disco que recompensa cada nova audição. É um retrato perfeito de um momento em que o hard bop atingia sua plena maturidade, pouco antes de o jazz embarcar em mudanças profundas ao longo da década de 1960.

Mais de sessenta anos depois, continua soando moderno, elegante e incrivelmente inspirador. Para quem aprecia a fase áurea da Blue Note, é um álbum indispensável e uma prova de que Donald Byrd foi muito mais do que um grande trompetista: foi um músico que soube reunir talento, bom gosto e visão artística em um dos períodos mais férteis da história do jazz. E com esses 5 músicos, "Royal Flush" é realmente uma "mão perfeita".

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Javon Jackson - A LOOK WITHIN (1996)

A resenha de hoje é sobre um dos meus álbuns favoritos dos anos '90 e um dos cds mais recorrentes nas minhas audições. Estou me referindo a "A Look Within" de Javon Jackson.

Para quem não tiver familiaridade com este nome, Javon Jackson é um sax tenor que surgiu numa época em que o jazz buscava novas direções. Apesar disso, ele sempre manteve um pé firme na tradição do hard bop, sem jamais soar datado.

Seu principal cartão de visita foi integrar os Jazz Messengers de Art Blakey entre 1987 e 1991. Poucos músicos passaram por essa "universidade do jazz" sem sair transformados, e Jackson absorveu muito daquela filosofia: som robusto, swing intenso e enorme respeito pela melodia.

Seu fraseado revela claramente a influência de Joe Henderson, algo que ele nunca escondeu, mas Javon acrescenta um lirismo próprio e um toque mais direto, menos abstrato. É um daqueles saxofonistas que agradam tanto aos puristas quanto aos ouvintes que procuram um jazz moderno sem excessos experimentais.

Foi nesse contexto que surgiu "A Look Within", lançado pela Blue Note em 1996.

Nesse álbum, Jackson se afasta da imagem de "continuador do hard bop". Em vez de montar um repertório composto apenas por standards ou blues, ele escolheu músicas de universos muito diferentes e conseguiu unificá-las através da própria linguagem. É de se admirar sua coragem de ampliar o repertório, evitando ser visto apenas como um revivalista.

O álbum passeia por compositores tão distintos quanto: Egberto Gismonti, Frank Zappa, Muddy Waters, Freddie Hubbard, Charles Mingus, Serge Gainsbourg, Duke Ellington e Hank Mobley. É um repertório que poderia facilmente soar desconexo nas mãos de outro músico, mas Jackson consegue dar unidade a tudo.

A escolha da guitarra de Fareed Haque, em vez do tradicional piano durante boa parte do álbum, cria um espaço sonoro muito aberto. Isso permite que o tenor respire e que cada frase de Jackson tenha ainda mais impacto.

Entre as faixas, algumas merecem atenção especial.

"Assessment (For Elvin Jones)" é uma homenagem ao lendário baterista de Coltrane, com o qual Javon gravou um álbum pela holandesa Timeless em 1992. O tema já mostra toda a intensidade do sax de Jackson e sua capacidade de construir longos discursos melódicos.

"Memória e Fado" de Egberto Gismonti é uma música profundamente melancólica, mas sem cair no sentimentalismo. Ela transmite uma sensação de contemplação, quase de nostalgia serena. Em vez de tentar reproduzir o universo sonoro de Gismonti, o saxofonista transforma a composição em um veículo para o jazz acústico. O tema permanece reconhecível, mas ganha uma pulsação diferente. O tenor de Jackson canta a melodia com enorme respeito, sem exageros, enquanto a guitarra de Fareed Haque colore a harmonia de maneira muito delicada.

"Zoot Allures", de Frank Zappa, é uma surpresa deliciosa. Poucos saxofonistas de hard bop escolheriam Zappa para um disco da Blue Note, mas a releitura funciona incrivelmente bem.

"Country Girl" traz a participação de Cassandra Wilson e estabelece uma ponte entre blues e jazz moderno com enorme naturalidade.

E, para quem gosta de Hank Mobley (como eu), "Recado Bossa Nova" fecha o álbum de forma brilhante. Jackson não tenta reinventar o clássico; ele preserva o balanço original e acrescenta seu tenor encorpado e cheio de personalidade.

O que mais me agrada em "A Look Within" é justamente o equilíbrio. Jackson demonstra um profundo respeito pela tradição, mas evita a armadilha da nostalgia. O disco soa elegante, moderno e extremamente musical. Não há demonstrações gratuitas de virtuosismo; tudo está a serviço da melodia.

É um daqueles álbuns que crescem a cada audição e que mostram por que Javon Jackson é frequentemente citado como um dos mais sólidos tenoristas de sua geração.

Andrew Hill - BLACK FIRE (1964)

Ah, a Blue Note dos anos '6o...Quantos álbuns extraordinários!

"Black Fire" é um desses. O disco foi gravado em novembro de 1963 e marcou a estreia de Andrew Hill na Blue Note. O produtor Alfred Lion enxergava Hill como um dos grandes compositores da nova geração, e esse álbum já mostra por quê. Nos anos seguintes, Hill gravou uma sequência de discos hoje considerados clássicos, como Smoke Stack, Judgment! e Point of Departure.

O quarteto é de altíssimo nível: Andrew Hill no piano, Joe Henderson no sax tenor, em uma das suas primeiríssimas gravações, Richard Davis no contrabaixo e Roy Haynes na bateria. O baterista originalmente escalado era Philly Joe Jones, mas um problema de agenda fez com que ele fosse substituído por Roy Haynes. Hoje é difícil imaginar o disco sem Haynes, pois seu estilo elástico e imprevisível combina perfeitamente com as composições de Hill.

O que torna esse disco especial é que ele não é exatamente hard bop, mas também não é free jazz. Andrew Hill cria composições com melodias angulares, ritmos inesperados e harmonias muito pessoais. Mesmo assim, a música nunca perde o swing.

"Pumpkin" abre o álbum de maneira quase enigmática. O tema parece torto à primeira audição, mas logo faz sentido, e Joe Henderson improvisa com enorme criatividade. "Subterfuge" é talvez a composição mais ousada do disco. O diálogo entre Hill e Roy Haynes é fascinante. "Black Fire", a faixa-título, é intensa e cheia de mudanças de direção, sem soar caótica. "Land of Nod" encerra o álbum de forma mais lírica, mostrando o lado contemplativo de Hill.
São 7 faixas ao todo, todas interessantes, mais 2 alternate takes.

Se você gosta de pianistas como Herbie Hancock, McCoy Tyner ou Cedar Walton, talvez estranhe Andrew Hill no começo. Ele evita soluções previsíveis: em vez de resolver as frases onde esperamos, ele cria tensão e a mantém por mais tempo. É justamente essa personalidade que faz dele um dos compositores mais originais da Blue Note dos anos 1960. E nada melhor que o álbum de estreia dele para conhecer esse grande artista que infelizmente nos deixou em 2007.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

René Marie - VERTIGO (2001)

René Marie tem uma das trajetórias mais fascinantes do jazz. Ela começou a cantar profissionalmente aos 42 anos de idade, após deixar um casamento abusivo de mais de duas décadas e abandonar uma religião restritiva. Ela se juntou à religião por volta dos 17 ou 18 anos de idade, adotando a mesma fé de seu então namorado (que logo se tornou seu marido). Por mais de duas décadas, ela seguiu rigidamente as doutrinas do grupo: As regras rígidas e os dogmas da congregação sobre o que consideravam "comportamento do mundo" a forçaram a parar completamente de cantar em público. Por 24 anos, sua voz ficou restrita a cantar em casa para os filhos.

Quando René completou 41 anos e decidiu que precisava voltar a cantar jazz, seu marido usou preceitos religiosos de submissão da esposa para tentar controlá-la. Ele deu um ultimato: ou ela parava com a música, ou deveria sair de casa. Ela escolheu a música, abandonando de vez o casamento abusivo de 23 anos e a própria religião para conseguir viver sua verdade artística.

Toda essa bagagem de repressão e libertação é o combustível emocional que ouvimos nas interpretações viscerais de "Vertigo". Lançado em 2001 pela MaxJazz, "Vertigo" é o segundo álbum de René Marie e a obra que a consolidou como uma das vozes mais audaciosas e artisticamente corajosas do jazz moderno. René Marie usa o álbum para pegar músicas extremamente conhecidas do público e virá-las do avesso, injetando uma voltagem emocional totalmente nova.

Na faixa inicial, "Them There Eyes", René começa a cantar apenas em cima de um duelo rítmico frenético entre o contrabaixo de Robert Hurst e a bateria de Jeff "Tain" Watts, sem piano para dar a harmonia. Em "Surrey With The Fringe On Top", canção tradicionalmente leve de um musical, René desacelera e a transforma em uma performance carregada de tensão e sensualidade. "Blackbird", que encerra o álbum, traz uma leitura misteriosa, minimalista e arrepiante do clássico dos Beatles, encerrando a jornada de audição de forma quase espiritual.

Mas o ponto mais visceral do disco é a junção ousada de "Dixie" (hino nostálgico do sul confederado e escravocrata dos EUA) com "Strange Fruit" (a dolorosa canção sobre linchamentos imortalizada por Billie Holiday). René mistura as duas de forma genial, criando uma crítica social impactante e arrepiante e transformando o racismo sistêmico em arte pura e desconfortável.

Além de interpretar, René brilha como compositora em três faixas autobiográficas: A faixa-título: "Vertigo" é uma composição autoral da própria René, onde ela canta sobre a sensação estonteante de perder o controle e se jogar na vida.. A música usa uma pulsação sincopada e um clima de jazz latino de tirar o fôlego, com solos brilhantes do saxofonista Chris Potter e do pianista Mulgrew Miller.

"I'd Rather Talk About You" e "Don't Look At Me Like That", outras músicas autorais, expõem vulnerabilidade, desejo e a firmeza de quem tomou as rédeas do próprio destino.

"Vertigo" é um trabalho exemplar, tanto artisticamente como tecnicamente (o cd é frequentemente usado pelos audiófilos para testar seus aparelhos) e que reúne composições inspiradas, uma interpretação eletrizante e uma produção sonora de referência. É daqueles álbuns raros que agradam tanto a quem busca emoção quanto a quem valoriza uma gravação impecável.

Donald Byrd - SLOW DRAG (1968)

O trompetista Donald Byrd ocupa um lugar de destaque entre os representantes do "Blue Note sound" dos anos '60, tendo gravado mais de 30 álbuns em seu nome, sem contar as inúmeras participações como sideman. Este disco representa um dos últimos suspiros do hard bop purista do músico, antes dele mergulhar de cabeça no jazz-funk e na fusão comercial dos anos 70.

Desde os primeiros segundos da faixa-título, Donald Byrd deixa claro qual é o objetivo aqui: construir um groove irresistível, daqueles que fazem o corpo balançar quase involuntariamente.

A abertura é simplesmente fantástica. Com quase dez minutos de duração, "Slow Drag" é uma celebração do swing em andamento relaxado, mas cheio de personalidade. A música avança sem pressa, permitindo que cada músico encontre espaço para desenvolver suas ideias. E, no meio dessa atmosfera descontraída, surge um detalhe que torna a gravação inesquecível: Billy Higgins.

O lendário baterista não se limita a marcar o ritmo. Em diversos momentos, ele faz comentários espontâneos, brinca, solta expressões como o famoso "your mama" e transforma a sessão em algo que parece uma reunião entre amigos. É um daqueles raros casos em que a descontração do estúdio foi preservada na gravação, acrescentando uma dose enorme de humanidade ao álbum.

Donald Byrd atravessava uma fase extremamente inspirada. Seu trompete combina elegância, precisão e um lirismo que nunca soa exagerado. Cada solo é construído com inteligência, valorizando a melodia tanto quanto a técnica. Byrd não sente necessidade de impressionar pelo excesso de notas; ele conquista o ouvinte pela beleza das frases e pelo domínio absoluto do tempo.

Ao seu lado está um quinteto de primeira linha. Sonny Red oferece um contraponto perfeito com seu saxofone alto de timbre levemente ácido e muito expressivo, enquanto Cedar Walton demonstra por que sempre foi um dos pianistas mais refinados do hard bop. Seu toque é sofisticado, econômico e cheio de bom gosto.

Na cozinha, Walter Booker e Billy Higgins formam uma seção rítmica impecável. Booker sustenta o groove com um contrabaixo firme e pulsante, enquanto Higgins entrega uma bateria repleta de balanço, criatividade e pequenas sutilezas que passam despercebidas numa primeira audição, mas fazem toda a diferença.

O repertório também merece destaque. As releituras de "Secret Love" e "My Ideal" revelam um Donald Byrd extremamente sensível, capaz de transformar standards conhecidos em interpretações elegantes e pessoais. Já "Book's Bossa", composta por Walter Booker e Cedar Walton, presta uma deliciosa homenagem à bossa nova sem perder a identidade do hard bop americano. E "Jelly Roll", de Sonny Red, acrescenta uma dose extra de energia ao álbum com um tema vigoroso e cheio de personalidade.

Gravado nos lendários estúdios de Rudy Van Gelder, Slow Drag apresenta a assinatura sonora clássica da Blue Note: instrumentos perfeitamente equilibrados, excelente definição e uma sensação de proximidade que coloca o ouvinte praticamente dentro da sala de gravação.

Talvez Slow Drag não seja o álbum mais famoso da vasta discografia de Donald Byrd, mas é certamente um dos mais prazerosos. É um disco que privilegia o groove, a interação entre os músicos e a alegria de tocar jazz sem qualquer afetação. O álbum exala um clima incrivelmente descontraído, recheado de soul e blues.

Mais de cinquenta anos depois, continua soando incrivelmente fresco. Poucos álbuns conseguem transmitir tão bem a sensação de cinco grandes músicos simplesmente se divertindo enquanto fazem arte, ao ponto que, os quase 39 minutos da gravação parecem voar e deixam com aquela vontade de "quero mais".

Giovanni Mirabassi Trio - LIVE @ THE BLUE NOTE, TOKYO (2010)

Alguns discos ao vivo registram um bom concerto. Outros conseguem transportar o ouvinte para dentro da plateia. Live @ The Blue Note, Tokyo pertence a essa segunda categoria. Desde os primeiros minutos, é possível sentir a atmosfera intimista de um dos clubes de jazz mais prestigiados do mundo e perceber que o trio vive uma noite de absoluta inspiração.

Gravado em abril de 2010, no lendário Blue Note de Tóquio, o álbum mostra Giovanni Mirabassi, Gianluca Renzi e Leon Parker tocando com um nível de sintonia que parece desafiar qualquer explicação. Não há exibicionismo, nem competição. Há apenas três músicos ouvindo uns aos outros com atenção absoluta e construindo a música em tempo real.

Quase todas as composições ultrapassam os oito minutos, permitindo que cada tema seja desenvolvido com calma, explorando nuances, silêncios e mudanças de dinâmica que só um grande concerto ao vivo consegue proporcionar. O resultado é um jazz que cresce lentamente, conquista o ouvinte e culmina em momentos de enorme intensidade emocional.

Leon Parker é um espetáculo à parte. Conhecido por sua abordagem minimalista da bateria, ele demonstra que criatividade vale muito mais do que quantidade de tambores e pratos. Seu kit reduzido produz uma variedade impressionante de timbres, enquanto o uso refinado das notas fantasma, dos acentos e dos espaços cria grooves hipnóticos. Em faixas como "Ny #1" e "Gold and Diamonds", fica evidente por que Parker é considerado um dos bateristas mais originais de sua geração.

No piano, Giovanni Mirabassi revela toda a influência de Bill Evans, mas sem jamais soar como um imitador. Seu fraseado lírico, profundamente melódico, carrega ecos da música clássica, da canção italiana e da chanson francesa. Há uma delicadeza constante em seu toque, mas também uma elegância rítmica que impede qualquer excesso de sentimentalismo.

Esse equilíbrio existe graças à seção rítmica impecável formada por Gianluca Renzi e Leon Parker. O contrabaixo de Renzi mantém tudo sólido e pulsante, enquanto Parker injeta um swing moderno, seco e extremamente preciso. A combinação cria um contraste fascinante: de um lado, o piano flutua com poesia quase impressionista; do outro, a bateria mantém a música firmemente conectada ao groove.

A qualidade da gravação merece destaque. É possível ouvir claramente a interação entre os músicos, a resposta calorosa do público japonês e até os pequenos detalhes da execução, tornando a experiência incrivelmente envolvente. É um daqueles discos que recompensam uma audição atenta, principalmente em um bom sistema de som.

Live @ The Blue Note, Tokyo é mais do que um excelente álbum ao vivo. É o retrato de um trio que alcançou um raro estado de equilíbrio entre técnica, emoção e comunicação musical. Cada solo parece nascer naturalmente da conversa entre os músicos, sem pressa, sem excessos e sem qualquer nota fora de propósito.

Para quem aprecia jazz contemporâneo acústico, sofisticado e profundamente humano, este álbum é uma pequena joia.

Steve Grossman - TIME TO SMILE (1994)

Considerado por muitos críticos como o ponto mais alto da carreira de Steve Grossman, o disco registra o saxofonista em plena maturidade artística. Gravado em Nova York em fevereiro de 1993 e lançado no ano seguinte pelo selo francês Dreyfus Jazz, o álbum é uma declaração de amor ao hard bop tradicional, em uma época em que o jazz seguia diversos caminhos. Grossman escolheu outro rumo: o da autenticidade.

Seu sax tenor é simplesmente impressionante. É impossível não perceber ecos de John Coltrane na intensidade e na profundidade harmônica, assim como a influência de Sonny Rollins na construção melódica e no senso de swing. Mas o mais interessante é que, em nenhum momento, Grossman soa como um imitador. Sua personalidade transborda em cada frase, com um timbre robusto, um fraseado extremamente fluido e uma energia que nunca sacrifica a beleza da melodia.

O repertório foi escolhido com enorme inteligência. A faixa-título, "Time to Smile", composição do pianista Freddie Redd, abre espaço para um dos momentos mais elegantes do disco. Grossman transforma a melodia em um longo discurso musical, alternando delicadeza e explosões de energia com absoluta naturalidade.

As composições próprias também impressionam. "415 Central Park West" e "Extemporaneous" revelam um músico que, além de grande improvisador, possuía uma voz muito particular como compositor. São temas sofisticados, mas acessíveis, que servem de plataforma perfeita para o talento de todo o grupo.

Entre os standards, Grossman oferece interpretações extremamente sensíveis de "I'm Confessin' (That I Love You)" e "Till There Was You". Em vez de reinventar essas canções, ele prefere explorá-las com respeito e enorme carga emocional, mostrando que maturidade também significa saber quando não exagerar.

O encerramento com "E.J.'s Blues", composição do lendário Elvin Jones, é simplesmente eletrizante. O quinteto parece tocar sem qualquer esforço, impulsionado por uma energia contagiante que resume perfeitamente o espírito do álbum. E que banda extraordinária.

No piano, Willy Pickens demonstra elegância e versatilidade, construindo bases sólidas e solos sempre inspirados. Tom Harrell participa de metade das faixas e acrescenta seu lirismo característico, dialogando com Grossman em momentos de rara beleza. Na seção rítmica, Cecil McBee oferece um contrabaixo firme e profundamente musical, enquanto Elvin Jones prova, mais uma vez, por que é considerado um dos maiores bateristas da história do jazz. Seu toque é vulcânico, cheio de nuances, capaz de incendiar a música sem jamais perder o controle.

A gravação também merece elogios. O som é limpo, natural e extremamente equilibrado. Cada instrumento ocupa seu espaço, permitindo apreciar tanto a força do tenor de Grossman quanto as sutilezas do restante do quinteto.

Time to Smile talvez nunca tenha alcançado a popularidade de alguns clássicos da Blue Note dos anos 60, mas isso pouco importa. Trata-se de um álbum atemporal, que demonstra como o hard bop ainda tinha muito a dizer nos anos 90. É um disco de músicos maduros, tocando sem vaidade, apenas colocando toda a sua experiência a serviço da música.

Para quem aprecia jazz acústico, intenso, elegante e profundamente humano, Time to Smile não é apenas uma excelente recomendação: é uma obra-prima escondida que merece ser descoberta e revisitada inúmeras vezes.