quinta-feira, 16 de julho de 2026

RENÉ MARIE - VERTIGO

René Marie tem uma das trajetórias mais fascinantes do jazz. Ela começou a cantar profissionalmente aos 42 anos de idade, após deixar um casamento abusivo de mais de duas décadas e abandonar uma religião restritiva. Ela se juntou à religião por volta dos 17 ou 18 anos de idade, adotando a mesma fé de seu então namorado (que logo se tornou seu marido). Por mais de duas décadas, ela seguiu rigidamente as doutrinas do grupo: As regras rígidas e os dogmas da congregação sobre o que consideravam "comportamento do mundo" a forçaram a parar completamente de cantar em público. Por 24 anos, sua voz ficou restrita a cantar em casa para os filhos.

Quando René completou 41 anos e decidiu que precisava voltar a cantar jazz, seu marido usou preceitos religiosos de submissão da esposa para tentar controlá-la. Ele deu um ultimato: ou ela parava com a música, ou deveria sair de casa. Ela escolheu a música, abandonando de vez o casamento abusivo de 23 anos e a própria religião para conseguir viver sua verdade artística.

Toda essa bagagem de repressão e libertação é o combustível emocional que ouvimos nas interpretações viscerais de "Vertigo". Lançado em 2001 pela MaxJazz, "Vertigo" é o segundo álbum de René Marie e a obra que a consolidou como uma das vozes mais audaciosas e artisticamente corajosas do jazz moderno. René Marie usa o álbum para pegar músicas extremamente conhecidas do público e virá-las do avesso, injetando uma voltagem emocional totalmente nova.

Na faixa inicial, "Them There Eyes", René começa a cantar apenas em cima de um duelo rítmico frenético entre o contrabaixo de Robert Hurst e a bateria de Jeff "Tain" Watts, sem piano para dar a harmonia. Em "Surrey With The Fringe On Top", canção tradicionalmente leve de um musical, René desacelera e a transforma em uma performance carregada de tensão e sensualidade. "Blackbird", que encerra o álbum, traz uma leitura misteriosa, minimalista e arrepiante do clássico dos Beatles, encerrando a jornada de audição de forma quase espiritual.

Mas o ponto mais visceral do disco é a junção ousada de "Dixie" (hino nostálgico do sul confederado e escravocrata dos EUA) com "Strange Fruit" (a dolorosa canção sobre linchamentos imortalizada por Billie Holiday). René mistura as duas de forma genial, criando uma crítica social impactante e arrepiante e transformando o racismo sistêmico em arte pura e desconfortável.

Além de interpretar, René brilha como compositora em três faixas autobiográficas: A faixa-título: "Vertigo" é uma composição autoral da própria René, onde ela canta sobre a sensação estonteante de perder o controle e se jogar na vida.. A música usa uma pulsação sincopada e um clima de jazz latino de tirar o fôlego, com solos brilhantes do saxofonista Chris Potter e do pianista Mulgrew Miller.

"I'd Rather Talk About You" e "Don't Look At Me Like That", outras músicas autorais, expõem vulnerabilidade, desejo e a firmeza de quem tomou as rédeas do próprio destino.

"Vertigo" é um trabalho exemplar, tanto artisticamente como tecnicamente (o cd é frequentemente usado pelos audiófilos para testar seus aparelhos) e que reúne composições inspiradas, uma interpretação eletrizante e uma produção sonora de referência. É daqueles álbuns raros que agradam tanto a quem busca emoção quanto a quem valoriza uma gravação impecável.

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